Noite de Ronda
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Nasceu na invernada Comprida dos fundos No rancho do posto Bem longe de tudo E ali se criou. Pensando que o mundo - esse mundo de todos - era feito de ranchos iguaizinhos ao seu.
E assim foi vivendo Sem pressa no tempo, Ouvindo cantigas Do vento nos ramos Sentindo o perfume Das flores do chão.
E foi-se arrastando Pra o meio da vida, A vida sombria Dos dias iguais... A vida que ainda Era o rancho do posto Do posto que a vira Nascer tão bonita, Com a mesma beleza Perene dos campos Tão ébrios e tristes Em noite de lua.
Seus anos - nos quinze - Chegaram iguaizinhos: Com a mesma alvorada De todos os dias, Com a mesma saudade De todas as tardes, Com o mesmo mistério De mil madrugadas...
Por isso uma noite sozinha No rancho, deitada no catre Que o tempo surrara Por tantos invernos, a moça do posto Se pôs a cismar: Será que este mundo O mundo de todos, É feito de ranchos Iguaizinhos ao meu? Será que lá longe Detrás do horizonte A vida é a mesma Dos dias iguais? Será que o amor Só une a velhice E os moços não tem O direito de amar?
Mas veio a cantiga Do vento nos ramos Trazendo o perfume Das flores do chão; E a moça bonita Dormiu mais um sono, No catre de lona Que o tempo surrara Por tantos invernos...
Um dia na estrada Cantando um aboio Passou um tropeiro. Levava uma tropa Pra o rumo do povo E logo ali adiante Acampou pra pousar...
E à noite houve cantos Tangidos de viola E gritos de amor! e a súplica ardente Do moço tropeiro Bateu na janela Da moça bonita, Trazendo desejos De um corpo sem dono E a moça tremeu...
Que maula é o instinto: A febre da carne Irmã do desejo No peito da moça Formou um temporal... E as quatro paredes Do rancho sombrio Guardaram segredos Da noite de ronda, Da ronda de sonhos Que a aurora apagou...
Na poeira da estrada A tropa se foi. Se foi no reponte Do moço tropeiro, E a moça se foi!
Ficou tão somente No rancho florido De manjericão, Um catre de lona Que o tempo surrara Por tantos invernos Solito...solito! -------------------------------- Por isso nas noites Nas noites de lua, Se ouve no ermo Batidos dos campos Alguém soluçar: É o vento nos ramos Chorando cantigas, Que hoje não tem Mais ninguém Pra embalar!