Noite de Geada
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A noite ronda a querência Prenúncio de vento e geada E a tarde que fez morada Num pôr de sol colorado Reponta um lote de gado Que corta a invernada ao meio No instinto primitivo De vir dormir no rodeio.
Até os cuscos do rancho Se misturam com a peonada Que guapeiam a noite braba Tentiando o fogo de chão A cuia de mão em mão Num gesto rude e fraterno Aquece o peito gaudério No tempo brabo de inverno.
Um potro junto ao galpão Relincha como sabendo Que o dia que está morrendo No poncho da noite negra É outra manhã que chega Com rodeio e campereada Na lida bruta de campo E patas quebrando geada.
O minuano debochado Por entre as frestas assobia E esta xucra melodia Inspira versos e rimas Atira cinza pra cima Neste bailado sem fim Revirando os picumãs Agarrados no capim.
Num repente uma cordeona Acorda o galpão inteiro No improviso do gaiteiro O verso abre a cancela E o timbre forte da goela Quebra o silêncio e a calma Dizendo coisas bonitas Que brotam dentro da alma.
Mais tarde nas horas mortas Reina o silêncio nas casas E o angico vira brasas No borralho fumacento A noite num passo lento Até parece que parou Pra enxugar o pranto de geada Que a madrugada chorou.
Assim que clareia o dia Fogo aceso, mate recém cevado Eu me paro emocionado Diante de tanta beleza E vejo a mãe natureza Nos mostrar o que é capaz Que a geada é a bandeira branca Do campo pedindo paz!