Da meninice e Ensaios
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O prenilúnio crescente Transpondo o véu da distância; E lá no fundo da estância Ela se vê, de repente Faz-se um raio incandescente A luz da própria lembrança, A bonequinha de trança, Os tamancos, o vestido... De nada tinha esquecido... Dos bons tempos de criança.
O chapeuzinho surrado, Feito de palha de trigo. O gato manso e amigo Que dormia no telhado O galpão mal assombrado Só de bem longe o mirava. Um que o pai contava: De estrada, cavalo e tiro... Aqui, um ai, um suspiro, Pois guerra, ela não amava.
No seu mundo de menina, Envolto em contos de fada, A velha gruta encantada, O fantasma que fascina. Arco-íris na colina, Sonho em pleno devaneio... Uma lenda pelo meio Que deixava o ar umbroso; Pronde foi meu boi barroso. Negrinho do Pastoreio?
Em tudo pra ela tinha, Um não sei quê, de mistério, O pai, toda vida sério, E a mãe, criando galinha... O sol que se ia e vinha, Mais senhorias que o patrono, Na noite perdia o sono, Sonhando seu sonho eterno: Do tempo não ter inverno E as mortas sombras de outono.
A mãe vinha de mansinho, Se lhe ouvia acordar E, uma canção de ninar Cantava sim, bem baixinho, Lhe sugeria um carinho Fugindo daquele plano... O catre guardava ufano, A sua Deusa suprema, Abraçada a uma diadema E uma bruxinha de pano.
No outro dia era ela, Quem acordava primeiro, Pra olhar o mundo inteiro Da soleira da janela... O rangido da cancela, O touro que dava medo, A fonte tinha um segredo, Sozinha por lá não ia, Brincar de roda-cotia, Na sombra do arvoredo.
Borboletas coloridas, Cigarras e pirilampos, Viu desabrachar nos campos As palmas e margaridas, Ao ver taperas perdidas, Sentira uma dor estranha Moribundos da campanha Por ali, se socorriam, E, em silêncio dormiam, Lagartos, cobra e aranha.
Aquele mundo era cheio De paz, ternura e espanto, O sabor e o encanto Dum permanente recreio... Foi por aí, que ela veio, Amadrinhando meiguice; E como se ninguém visse, Despertou do sono eterno E, congelou no inverno, Os monstros da meninice.
E chegando a primavera O jardim abriu-se em flor Ela ensaiava o amor Bordando a vida em quimera, Aqui, ela já não era, A minininha inocente; Se alvoroça intensamente Com o fulgor de setembro, Acendendo em cada membro Um anseio diferente...
Fiou renda e colheu flores, Sob o sol de um novo dia, Despida de fantasia Sente da sorte, os pendores, Vê uma aquarela de amores, Pintada em falsos matizes, Por isso volta as raízes, Com o crescente charrua Onde a estrela segue a lua Buscando dias felizes.