Nuances de Silêncio
Mal despertara a manhã, - Ao tranco do colorado -. Guitarra atada nos tentos, O mestre agarrou a estrada Sonho louco na cabeça -Buscar o som do silêncio-. No lento correr dos dias, Nasceram cantos e poemas, Muitas vozes, tons variados, Chamarras, zambas, milongas, Mas nada, insofismável Que traduzisse o silêncio.
Simples ausência de verbo Só em parte traduz quietude Calmaria, madrugada Nada se move, nem ouve Silêncio tenso, ansiedade. De repente um canto largo, Notas claras corta o ar. Clarim de plumas e penas, -Traz a manhã na garganta-, Explosão de sons e cores Que se guardavam silentes, Reponta o sol e a vida.
O marco já tem cem anos, Marca episódio sangrento. A força federalista Guarda o topo da coxilha, Na planície forma em linha Um regimento contrário. De conflito - esse silêncio- Que aos embates antecede. O ódio mutuo gestado Na sementeira do mando Que ceifou vidas e sonhos Em barbaresca refrega.
A noite emponcha o andante, Petrificam-se as imagens. Recolhidos sons e cores, Paira um silencio de medo Sobre o vazio da paisagem. Outros silêncios habitam, Mente vaga em turbulência; Ausência, dor, distância. Palavras jazem inúteis, Coração busca razões Mas o pensar não se cala.
Vazio, amargo, pesado Bem mais que mágoa ou adeus, A pesarosa amargura, Por entre vultos e sombras, Vem maltratar o sonhar: A coragem posta a prova No mais profundo do ser. Sem rumo, nem direção, A vida - um imenso nada-, Indescritível tristeza, -Silêncio de solidão-.
Nessas nuances de silêncio Impõe-se a reflexão. O que foi dito ou não dito, Que foi vivido ou negado. A resposta vem de dentro, -No verbo desde o princípio-, Olhos verdes que refulgem, Alvoradas de um sorriso. Universal a linguagem Que permeia entre os amantes, Os gestos que dizem tanto, Sem palavras, sem promessas.
Se as almas de asas plenas, No encontro existencial Atingem a plenitude, Nada mais é necessário, Palavras não mais importam. Barcos no abrigo de um porto, -Silêncio de amor e paz-. O mundo se faz ternura, A vida, eterna canção. São de abraços quatro braços, O sol paira em harmonia Sobre as flores da janela.