Legado de Estrada e Tropa
I Entonado num Tordilho Da cruza moura-andaluz Nena Franco vem ao tranco Na direção do povoado.
Sabe bem donde é que vem, Da velha estirpe tropeira, Dos maragatos de Espanha Buscadores de horizontes.
Só entende o rumo da estrada Quem sabe onde ela começa E não esquece as origens.
Pra onde vai desenha o rumo Escora a vida no braço Nos atos e na palavra.
II A memória retrocede Longe na poeira do tempo, Um ancestral muladeiro Descera da Sorocaba.
Barba branca chapéu grande Abre um caminho pioneiro Lapa, Lages e Vacaria. Passinho, Pinheiro Torto.
Costeando a velha Cruz Alta As terras da Mãe de Deus Lindos vergéis muitas bênçãos.
Erguera rancho e família No antigo Posto São Joao Costeando o rio Toropi.
III Lendária cerca de pedras Envolta em musgo e silêncio Guarda pretéritos fatos Que não chegaram na história.
Os livros trazem tão poucos E os poucos são do poder Os tauras da lida bruta Passam à margem do olhar.
Riscaram rumos, picadas Pra cruzar tropa e destino. Semeando um mundo futuro.
Ao descaso relegada Indiada moura espanhola Império de bois e potros.
IV Sob as ruínas missioneiras Extraviados seus rebanhos Novo legado enraíza Para brotarem cidades.
Tranco lento Nena Franco Junta passado e presente Antevê longe o futuro Sem tropas pelas estradas.
No longe o som do cincerro Sangue de várias culturas Na memória inquebrantável.
Somos filhos das estradas Herdeiros dessa memória Que refundou o Rio Grande.