A Moça dos Olhos Verdes
Uma tordilha ligeira Dos contos de Andaluzia Levita por sobre pastos Num galopito estirado. Distância-70 léguas- Saudades- nunca se sabe-. A guitarra na garupa Guarda zambas e vidalas, Um poema que diga muito, Não dizendo quase nada, Pra chegar na casa dela No manso embalo da noite. Bem temprano, peregrino Atalho rumos e estradas. Ao convite de um olhar O longe fica mais perto. Conheço mapas e rumos Cada curva cada ponto, Cada volta onde me encontro, Recantos, esconderijos. De dia entendo a paisagem A noite sombras e estrelas, Distante a moça - um poema-, Destino do meu andar. A estrada linha inconstante Onde o olhar se demora. O ontem, vaga lembrança Batido de casco e pó. Galopito rédea curta, De acordar os passarinhos Sem despertar incertezas. Miragem quase em assombro, Melíflua imagem de sonho Com crespos em desalinho, Sabor de uvas maduras, Corpo de rio e guitarra. Tordilha - compridas crinas-, Ao gosto e jeito da raça, Entende sonhos, segredos, Tranco leve ritmado, Compasso do coração. Riscam silhuetas, um rosto, As chamas do fim de tarde. Lábios carmim, olhos verdes -Os mesmos olhos da moça-. A moça que fora um sonho Nudez envolta em poesia No mar de vinhos e poemas. O sol no vagar se esgueira Silenciosa a noite chega. Antecipa a madrugada Pra não despertar os galos Que hão de escoltar o dia No seu rodar incessante. Por entre claros e escuros Vai gestar canções dolentes, Guitarra de noite adentro. Vez por outra o verso voa Nas frágeis asas da brisa E vai pousar seresteiro Nos olhos verdes da moça. Olhares dançam e cantam Música que ninguém ouve Olhos de abraço, luzeiros, Verdes de céu e de campo Convidam buscar a estrada, Como quem desvenda um mapa Que traduz rumo e destino. Olhos de olhar feiticeiro Que enlaçam não sendo laço Não sendo rédeas dominam, Alargam sonhos, horizontes Desfazem tempo e lonjura. Por entre sombras e luzes Os olhos verdes da moça, Setenta léguas distante, São olhos que vem de longe Outros tempos, outro mundo. Expressão clara, divina, Véu de promessas, mistérios Destino do meu cantar. Tem a expressão que navega Sem temer as tempestades, De longe a cor dos invernos, Bem de perto, primaveras.