Metamorfose
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Que ele era uma alma boa todo pago já sabia.
O ser bom depois que morre nunca foi um privilégio. Mas este, enquanto vivia soubera gastar seu tempo como árvore, que floresce e frutifica serena, consciente que a mesma geada que lhe branqueia as melenas adoça o fruto maduro e purifica a semente.
O campo foi universo de uma etapa que findou. Mesmo sem querer andou como quem sabe que passa na transição das tropeadas, com repontes e pousadas num rumo que não acaba.
Dizem que a morte é o nada. Mas pode ser nada a vida se não se encontrar sentido entre a chegada e a partida.
Por isso seu desapego às coisas que já tivera.
Fez rancho e arou a terra, não como dono e senhor, mas como quem — de passada — a ocupasse neste mundo por uma razão maior.
E quando emalou o poncho não deixou contas a pagar. Por onde andou crescem plantas e há pássaros a emplumar; no balanço das taquaras brinca o vento alegremente, os espinilhos florescem sobre arroios de águas claras e a cigarra afia o canto no esmeril do sol quente.
Enfim a serenidade. Enfim o intemporal. Andará, sem pressa ou rumo, campereando alguma várzea - em manhãs de eterna calma — em outonos sem final.
Livre agora dos temores que vivem com os mortais, tem a paz da borboleta que vaga sobre os trevais. Depois de haver sido larva e pelo chão se arrastar; depois de ir terra a dentro para, de treva e silêncio, fazer asas e voar.