Memorial de Galpao
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Quando um cochincho abre o peito por volta das quatro e pico e o sono velho se vai... Não tenho outro remédio a não ser deixar o catre e rumar para o galpão, recostar algum tição no guarda-fogo de angico.
Fogo grande, cara limpa, passo um pente nas melenas, enquanto a erva descansa e aguardo o chio da cambona para empeçar a mateada; somente os grilos e os galos e os bufos de algum cavalo, sonorizam a madrugada...
Sovo a palha, pico um naco, enrolo um baio a preceito; porém antes de ficha-lo, já desfiados com carinho os fios de ouro do fumo, adiciono a figueirinha que dá o aroma ao sabor, quando a tragada enche o peito...
O amargo e o crioulo se encarregam mutuamente, de temperar o mutismo da penumbra galponeira, enquanto a D’alva luzeira de pupila dilatada, deixa um clarão de alvorada na madrugada campeira
O valos da brasa viva e o brilho das labaredas, formam a chama votiva que move a ânsia da gente, com pensamentos alçados que se perderam no tempo, mas que ficaram gravados dentro do subconsciente.
no perfil dos cavaletes, entres as garras de domar, nazarenas e outros trastes, se vislumbra alguns aperos que monarquearam pacholas, pelas “carpas” dos bolichos canchas de tava e carreira, altar terrunho dos tauras.
Numa tela enfumaçada sobre o painel da memória, ressurgem velhas imagens que o tempo não destruiu: O rosto da china linda que me tirava o sossego, incendiando poncho e pelego em tantas noites de frio...
Cenas de bailes e catres, versos, milongas, chamarras, trucos, tavas e quitarras, onde a cachaça é o motivo que inspira esse quadro vivo, com romances proibidos que aconteceram escondidos e a noite guardou no arquivo.
A algazarra matinal do canto da bicharada e o gosto da erva lavada me apartam dos devaneios; largo a cuia, pego um freio, vou recolher os cavalos, feliz, pelos dois regalos... O galpão e a madrugada...
A D’alva inspirou o galo, o menestrel mais antigo... Eu encontrei meu abrigo junto do fogo de chão pitei, tomei chimarrão no mais terrunho ritual e deixei o memorial na picumã do galpão...