Lanças - o Olhar da Diferença
Trago uma lança encravada Nas suplicas do meu peito E as bandeiras do eletismo Silenciam meu clamor. Não vi liberto o meu povo Que as misérias das vivendas Transcendeu charque e fazendas Na escravidão... não por cor!
A tez da minha existência Fortaleceu essa gente E a intrepidez de Porongos Ainda corroi meu ventre.
- Onde esta a liberdade Que nos tornaria iguais?! - Onde esta a igualdade Que nos faria libertos?! Se o pranto do meu calvário Serviu pra assinar a Paz!
Vi um dia o guerreiro Que do refugio dos quilombos Veio serrar fileiras Com os antigos algozes Na crença que seus irmãos Pudessem dispor da seara Da aclamada humanidade.
Eu carreguei a semente Do sonho desse lanceiro. Talvez no único instante, Em que a real liberdade, No refugio das alcovas Nos torna nus e iguais. Pois amor é virtude Que aplaca o ímpeto mais rude Na soma... que nos faz mais!
A procissão das guerrilhas Que em busca de chão e teto, Na petição de tão pouco Dentre do tanto que há! Não são tão menos lanceiros Que os infantes das armadas, Também não menos usados Pelas ânsias do poder!
Poder de galgar palanques, Poder do voto aviltado, Poder do grito das massas, Poder do som... dos sem voz!
Aqueles que do saber Propagam labor e dias Fazem da infância poesia, Fazem da ciência mudança, Não são tão menos lanceiros Com cincerros e badalos Também não menos escravos Do sistema da exclusão.
Exclusão do diferente Exclusão do mais ousado Exclusão mecanicista Do saber... dos sem poder.
Os que plantam na terra Horizontes e sepulcros Nos germes dos alimentos, Das águas e matarias. Não são tão menos lanceiros No calejar de seus sóis. Também não menos marcados Por grilhões industriais.
Na parede, as lanças se cruzam Num compasso tafoneiro De quem passa dias e anos De inverneiras e minuanos Sem jamais errar o passo Nem buscar jamais o catre.
Num tempo, em que: Ter é Ser As horas são capitães Que nos surram com cobranças E a picana risca o couro Numa escrava servidão.
Eu que fui ama de leite De bugres e “sinhozinhos” Eu que colhi os espinhos Sem jamais sentir a flor Quero ser fruto e semente Quero viver a corrente De mão em paz de aquarela Quero repartir o pão Entre cristãos e judeus... Eu quero viver o amor Sem algemas nem tutelas.
Quero ser negra bela! Quero ser seio de ceva Para um verde taquapy Eu quero ser diferente E também ser a vertente De um tempo ainda guri.
Poesia integrante do CD do 8º Seival da Poesia Gaúcha São Lourenço do Sul - RS.