NA SESMARIA DE UMA FOLHA EM BRANCO
O campo aberto de uma folha em branco É terra entregue à inspiração inquieta... É sesmaria onde se planta a alma Quando o sesmeiro teima em ser poeta!
De quadra em quadra vai semeando versos, Lavoura posta madurando as penas, Rompendo amarras de quaisquer quebrantos, Colhendo encantos de paixões morenas...
Repassa a vida, as ilusões, os sonhos, Revisa as cercas, vai topando o tempo, Conta segredos junto às entrelinhas Pelo aramado dos seus sentimentos...
E vai povoando uma invernada em branco Fazendo tropa, reunindo anseios, Tarqueando sinas pelas noites claras Quando a palavra vem parar rodeio...
Igual ao vento este sesmeiro segue Sem ter divisa que lhe empece a andança, Abre caminhos qual um bandeirante Levando adiante um pouco de esperança...
Se vez por outra silenciam versos E a seca insiste em se fazer presente Visita a aguada que traz junto ao peito E ataca o leito pra fazer-se enchente!
Pinta aquarelas em léguas de campo E céus tranqüilos de estrela e lua A brincar de Deus, emprestando vida, À palidez de uma invernada nua.
Colore aos poucos o deserto fértil Que aguarda virgem o devassar do tema Pra ser fecundo em geração e fruto Na floração primaveril de um poema.
Se vez por outra seu olhar se perde, Feito a campear um abstrato rumo, Por certo encontra em seu rastro o verso Imerso em si a desvendar o sumo...
Alheio ao mundo ideal dos fatos, Com o pensamento muito além das horas, Se faz quimera noite escura a dentro Pra renascer num arrebol de aurora!
Com o fio do arado dos seus sentimentos... Com a inspiração a imitar cinzel... Entalha todo o seu sentir-semente Na terra aberta e alva do papel.
Quando o sesmeiro teima em ser poeta, Da sesmaria que ele mesmo tece, O infinito vem tocar-lhe a face E o horizonte se debruça em prece...
Não há limite que aprisione a alma... Não há distância que não cruze ao tranco... Quando o sesmeiro teima em ser poeta: Na sesmaria de uma folha em branco!