Sobejos de um Andarengo
Seu peito também tapera... Sua alma também ruína... Da estância, vagos sobejos Na palidez da retina...
Do rancho, o último esteio Perdido a favor do vento, Qual um guardião alquebrado Rondando a fúria do tempo...
Na quinta que foi jardim, Horto de esmero capricho, Se lastravam urtigas, Guanchumas e carrapichos. A roseira já morrente Com seu mister de mimosa.
Ofertava aos algozes A sua última rosa...
A erva de passarinho Parasitou o seu trono, Na copada centenária Do avoengo cinamomo...
Na lagoa da canhada, Uma garça cismarenta Reflete suas mágoas Se espalhando ao revés... Por onde as lerdas traíras Desconhecendo anzóis Brincavam com aguapés...
A tranqueira de coronilha E as pedras da cercania, Na longa saga da espera, Já peleavam vacilantes Contra a intempéri9e das eras...
Os entes queridos... Sim, estavam todos ali... Numa campa decadente Desprovida de vigília, Adornada pelo pasto E flores de maçanilha...
Foi por ela que partiu... Um dia já sem ninguém Saiu a esmo, errante... Mas o tempo que é mutante, Sulcou vergas em seu rosto E jogou neve de agosto Em sua melena de andante...
Por isso hoje voltou... Voltou pra entregar ao pago Seu corpo judiado e só, Queria morrer ali... Pelo seu chão diluído Em leiva, terra e pó...
Nessa noite morreria, certamente... A tapera se fez silente Na ressonância escura, O grito do urutau Forjou ecos na lonjura, Preludiando a despedida Num dueto de amargura...
E começou a morrer, lentamente... Com a sombra madrugueira, Com o lufar do sereno, Com o piscar da boieira... Morria feliz por estar ali!
Olhando o céu da querência... Onde a lua tristemente Chorava orvalho dourado Entre as brumas do poente...
E morreu... Quando já amanhecia E, no vazio se ouvia O arpejo manso do vento, O lume grande da aurora Mangueava a última estrela No ermo do firmamento...
Sequer um berro de touro... Sequer um tropel de potro Sequeer marulho de arreio... ...só silêncio na tapera...