O Lobisomem
Já faz tempo, muito tempo... Visto com certo malgrado enterrei velhos ressábios nos longes deste lugar, no fundo desse mistério se resumia um gaudério já cansado de andar.
Era o refúgio pra um taura com carência de sossego. Acostumei com o tempo no vazio do isolamento ruminando meus segredos...
Mas em noites claras não durmo... Saio pra o campo sem rumo zombando da solidão, e nem sei por qual razão passo horas em vigília, cantando pra lua cheia lá no alto da coxilha.
O povo cheio de crença “mal disse” pela querência o meu modo de viver, se alastrou pelas fazendas relatos, boatos e lendas a respeito do meu ser.
São histórias fantasiosas que causam medo e espanto... Dizem que almas penadas saem rondando as canhadas nas madrugadas que canto.
Minha fama é maldizente! desse conceito sinistro me veio a fama de bicho que se disfarça de gente.
-No meu rancho ninguém chega- Numa pressa improvisada cruzam além da porteira sem aceno nem mirada... Os potros de minha doma não querem nem de regalo, ... magoado pelas desfeitas larguei pra o campo os cavalos.
-Comigo ninguém mateia- Ariscos e desconfiados nem vago pede pousada ou apeia pra um amargo... Na cisma de mau agouro recusam meu chimarrão, e de soslaio se esquivam de meu aperto de mão.
... por total indiferença aos princípios de um campeiro, meu gado virou refugo já nem paro mais rodeio, Tudo oque tem minha marca dizem ser amaldiçoado. ... sou referência de assombro no misticismo do pago.
Talvez seja esta melena surrada de vento norte, ou a barba de dois palmos que justifica o meu porte... Talvez seja a estampa rude num perfil desaprumado, ou estas pernas cambotas por culpa dos aporreados.
Dizem que meus olhos brilham qual uma tocha de fogo e que nas “Sextas” de lua ouvem ganidos de um lobo... Dizem que os cuscos do pago passam a noite uivando quando me ouvem cantando com soluços de urutago.
Que preconceito maldito! O povo me fez proscrito por insensata razão... É clara a velha tendência: “Quem julga pela aparência não enxerga o lado bom.” ... sou visto por mau pressago só porque vivo sólito cantando por puro instinto versos bonitos que trago...
Mas, já nem me importo com isso, se sou visto como gente ou sou visto como bicho. ... se vou morrer com o fado de assombrar o próprio pago pois que seja por capricho numa noite de vigília... -talvez numa sexta-feira- cantando pra lua cheia lá no alto da coxilha!!