Dos Memoriais de um Tropeiro
Deixem falar o tropeiro pela memória do tempo... Pois o rol de sua memória é um lenitivo de glórias de um passado itinerante que singrou léguas distantes forjando o rumo da história...
... só o tempo é testemunha da saga mais peleaguda dessa odisseia terrunha. ... as prosas nas noites longas fatos, relatos e assombros povoando noites de rondas...
Pois então... Deixem falar o tropeiro neste momento oportuno, que se reporte ao tribuno das rodas de acampamento e que nos conte uma história pela memória do tempo...
- Pois boeno... então vos falo... Cruzei por aqui mil vezes!! E nos longes desses caminhos este velho peão tropeiro viu tantas coisas parceiro: Léguas e léguas infindas em incertas trajetórias... e um catecismo de exemplos aos tempos loucos de agora...
Certa vez toquei a tropa serpenteando nova rota num longínquo itinerário costeando o litoral norte. Quinhentas mulas por diante na mais sofrida paciência. ... é uma aventura imprevisível cruzar estranhas querências..
Cauteloso fui em frente culatreando e arribando nesse Pago diferente..
Até que um dia chegando às margens de uma lagoa a tropa redemunhou esquiva trocando orelhas foi refugando e parou...
Só então tomei tenência! Um alegre reboliço pintava um quadro festivo na entrada do vilarejo de “Conceição do Arroio...”
Meu coração cadenciou na sensatez da emoção. Por entender um momento de memorável nobreza e tão lúcida homenagem...! Até a mulada xucra foi se arredando morosa dando solene passagem...
- O que vi lhes conto agora - “Rainha Jinga” imponente formava par ao “Rei Congo”, retornando coroado com a benção do vigário na “Capela do Rosário” bem ali rente ao povoado...
Ao sincopar de tambores e bulir de “machacás” seleta “vara dançante” reverenciava seu Rei... Os homens de “pés no chão” no alvo das roupas brancas coreografavam ao Rei...
“Oia lá manco manco pisá de vagá, Ó, ó pisa de vagá lá na porta do céu tu não vá trupicá...'’
Como lhes disse parceiro, eu que já vi tantas coisas e tive um certo orgulho de tropear em rumos estranhos por esse mundo bagual, me envergonhei por ser branco ao entender o ritual...
- O que vi explico agora - Eram negros “Maçambiques”... num misto de religião, de arte e de tradição... senti em cada olhar orgulho por serem negros e o porque de seus louvores, já que pra Deus com certeza os homens não têm cores...
Foram trazidos de longe enchiqueirados qual bichos, foram míseros escravos quilombolas por instinto... Mas ninguém teve poder pra arrancar de suas almas a legendária cultura, (... atavismo redivivo que ainda hoje perdura...)
Mais despacito que antes campeei o rumo e segui... repontando junto a tropa essa passagem remota que nunca mais esqueci...
Minha alma de tropeiro por certo um tanto culpada e já desbotada e vazia, entendeu que a liberdade tem um matiz de alegria...
... tinham cor negra na pele e alma mais branca, que a minha!!