Alma em Verso
Poesia

CASMURRO

Luís Lopes de Souza

10º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em

Hoje a inquietude me perturba numa ressaca de incertezas e medo... - São meus ranços de casmurro certamente!

Vozes lisonjeiras não insistam... Sorrisos transfigurados desistam... Deixem que os tormentos me judiem sem dó! Hoje permitam os meus silêncios deixem este velho ficar só!

Não quero o agudo dos relinchos desses potros pois os ventos repontaram os meus fletes pra morrerem sofrenados pelos outros. ... que nesses campos lerdos e sonolentos só vaguem sombras em lentos movimentos. ... que se calem guitarreios e milongas e as payadas sejam breves, sem delongas!

Que não passem em meu rancho gemidos gastos de cambotas nem aboios entediosos de tropeiros... Que o vento toque de leve minha melena sem carícia, nem ternura, nem pena! Que o sol num céu pálido e distante descambe nas coxilhas de outros pagos frio e dúbio como o meu semblante...

Hoje não quero matraqueares pelas casas nem “retrechos” estridentes de cigarras... Não quero reboliços, nem mugidos, nem gorjeios, alaridos... Nada!! Quero apenas expurgar as minhas cismas e as magoas quase vagas que me seguem nesse rumo que se estende tão a esmo... vou tentar entender os meus rancores no refúgio solitário de mim mesmo!

Deixem que os fantasmas que carrego se apoderem desta alma sem razão, que armem as diabólicas carrancas e me assombrem sem piedade nem perdão! Que me cerquem, abram chagas com suas farpas... se embriaguem com o rubro das sangrias... me punam, me judiem, me castiguem! Pois entrei dependente e voluntário, na masmorra que engole meus remorsos pra nutrir meu inferno imaginário!

Deixem que anomalias macabras apavorem os demônios do meu eu, descarreguem toda a ira assustadora no momento nauseabundo em que me encontro. Apedrejem minha dormente matéria hoje muda, desarmada e sem socorro, que contrita penitencia a vaidade na azeda sensação da miséria!

Deixem que o meu ego vagabundo se extravie com urgência em tropelias no astral indomável do meu mundo... Deixem que eu arraste a minha cruz nos escolhos cismarentos de um profano, e decrete a minha própria sentença na reclusa penitência dos insanos... Deixem que eu digira os meus pecados pois caminho com meus deuses pelo avesso, tragando na taça dos meus ascos cada gota do veneno que mereço...

Verdade! Hoje a inquietude me perturba numa ressaca de incerteza e medo... por isso só quero a inércia isolada pra exorcizar meus pesares e segredos...

Hoje meu coração pulsa vacilante: Não esta alegre nem triste... Não esta amargo nem doce.. - São meus ranços de casmurro certamente!

Vozes lisonjeiras não insistam... Sorrisos transfigurados desistam... Deixem que os tormentos me judiem sem dó! Hoje permitam os meus silêncios deixem este velho ficar só!

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CASMURRO: 1- aquele que é teimoso, implicante, cabeçudo. 2 – ensimesmado, sorumbático, triste. 3 – homem calado em devaneios consigo mesmo.

Crédito da fonte: Luiz Lopes de Souza