Sem Saber Rezar
Caminho que a alma traduz vestido de luz, num motivo guardado... caminho que o tempo reluz do calvário e da cruz no poema sangrado eu teimo ao quebrar meu silencio entre o muito que penso e no algo que leio... nas preces e aromas de incenso, onde rezo e repenso os mistérios que creio!
Além de mim, não há um fim! Nem deverá... além da cruz, não houve a luz? nem brilhará? os muitos motivos sangrados, do Cristo pregado, jamais saberei jamais saberás!
Eu não brilharei, tu não brilharás...
Enquanto a vaidade do mundo falar mais profundo que a voz dessa luz, enquanto os mistérios que cremos e o algo que lemos não possa explicar:
Eu não brilharei, tu não brilharás...
Brilha... a beleza de uma corticeira refletindo o sol brilha... o retouço de um cordeiro frente ao arrebol! Luz na paisagem, de um final de tarde, onde paro e penso: se eu brilharei? Se alguém brilhará?
Ainda chora o homem por não ver a luz de um bom pôr de sol!
Que o bom Deus te guarde, poesia viva... ... que o bom Deus te guarde!
Pingos rebolcados, cantos encantados de sabiás e vidas vem na recolhida, luz enternecida de um clarim barreiro que abre o peito e canta, que abre o peito e canta por ter mais garganta que estes pregadores que assinam pastores e a gritos e ditos formam falsos ritos na ambição mesquinha de roubar o pouco de quem já vem louco pela vida amarga pela vida larga...
meu canto é um grito e tem missão guerreira, de sentar basteira e levantar trincheiras por onde andejar! Meu canto é triste porque é triste o homem que ainda vai ter fome sem saber rezar...
meu canto é triste porque é triste o homem!
Encilhei tiflando noutro dia Bueno! Lambia o sereno meu par de choronas, agarrei cordeona, e já me pus montado dizendo à campanha que estava de prece e a luz que enternece meu canto campeiro é a mesma contida no cardeal guerreiro e o pranto, luzeiro, que a manhã derrama é o mesmo que flama no olhar do Barreiro!
Num culto campeiro sem bronze nem ouro somente as bombilhas prateadas no couro, somente as argolas num buçal de touro que foram compradas com o suor dos calos não foram esmolas ao som dos badalos me acompanham rindo quando teimo e vivo!
E hoje refletem motivos de luz aos olhos da cruz de um céu domingueiro.
Pergunto ao dinheiro que o campo não vê; Pergunto ao pastor que o pobre ainda crê; Terá no amanhã algo mais que colher aquele que escuta sermões sem saber? Que o campo é quem reza no olhar da alvorada que o grito e os ditos que a missa decora de nada combinam com o homem que chora e de nada nos servem de alento e escora!
Encilho matreiro – maneador e poncho – me escolta a esperança de firmar meu canto
e aqui, brilharei... e assim – brilharás!
Os muitos motivos do Cristo pregado? Então saberei? Então saberás?
Meu canto é um grito e tem missão guerreira... de sentar basteiras e levantar trincheiras por onde andejar... meu canto é triste porque é triste o homem que ainda vai ter fome sem saber rezar...