Lanceiros Negros
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Nos varias estendidas as mantas salgadas, coloreando as “Coqueiro” nas grandes matanças, boleadeiras ao vento, pealos, bolcadas, e tropilhas de potros vencendo as distâncias. O rascunho dos cascos leva os corredores aos rincões mais remotos das tropas alçadas. Nas cantigas de ronda lembranças de amores, nostalgia que ajuda a varar madrugadas.
Uma lida mais bruta sombreou o horizonte: reunindo a gauchada num mesmo critério, brancos, índios e negros, pañuelo em reponte a enfrentar a cobiça e o desprezo do império! Ruboriza-se o verde dos campos em guerra... clarinadas clamando entre as duras refregas... a coragem do forte brotando da terra qual manojos de lanças no fio das macegas.
Quanta dor, orfandade, viuvez, sacrifício... por dez anos durou o cruento concerto, até vir a proposta de “honroso armístico”. Libertar os escravos foi parte do “acerto”. Vitoriosa a vontade de gente farrapa! Não baixamos a crista, ou beijamos a mão!... O Brasil remarcava o Rio Grande em seu mapa, e o gaúcho-soldado era, enfim, cidadão!
Ano mil oitocentos e quarenta e quatro, na calada da noite, novembro, quatorze: cai o pano ao final do sinistro teatro que varreu do cenário os guerreiros de bronze. Para que desarmar a milícia cativa que não tinha mais pátria, somente patrão? Tanta esperança e fé e a querência adotiva em lugar do batismo, deu-lhe a extrema-unção.
Foi “surpresa”?... Ou traição” por escusos conchavos?... Quem levou nos pessuelos os “trinta dinheiros”?... e dormindo e sonhando morreram escravos em Porongos – calvário dos negros lanceiros! Alguns poucos restaram, famintos, feridos, procurando refúgio com Netto, em La Glória. (O vento em volta ao cerro semelha gemidos e há uma tarja de luto num livro de história)!