Alma em Verso
Poesia

Lanças inocentes

Leonardo Charrua

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Trago um grito Guarany Corcoveando na garganta! Sou Passado que levanta Na missioneira paisagem; Trago nos olhos a imagem Da chacina que eu vivi, Por taita sobrevivi Voltei e me fiz mensagem!

Trago vivo na Memória, Aquele dia insano, Um episódio profano Na história da humanidade; Um rastro de crueldade Pela terra se estendia, Contra o índio que morria Gritando por Liberdade!

Havia nuvens lobunas Sobre o arroio Caiboaté; Rezava sua prece o pagé Para as almas da mi’a Gente; Mas a morte inclemente Lançou a peste em trovões, Era a praga dos canhões Contra lanças inocentes!

Peleei com força baguala Pela terra que era minha, Mas só coragem não detinha Os canhões com seu entono; Eu vi a morte em seu trono; Entre chamuscos sorrindo, E vi meus irmãos caindo Como folhas de Outono!

Que brutal desigualdade Esta guerra amaldiçoada; Ante o vigor da espada Tastavilhei sobre meu chão; E a voz se fez oração, A velha cruz altaneira, Mas a terra Missioneira Vestiu-se de escuridão!

E impotentes a tudo Os pobres inacianos; Seus ideais, triste engano, Que o fanatismo concebeu; E tudo no mais se perdeu Quando as tribos marcharam, E os padres então choraram, Pedindo perdão a Deus!

As reduções, as Catedrais, Foram “Castelos de sonhos”! Foi sim um erro bisonho Da mais cruel incerteza; E por amar a natureza, Meu povo foi dizimado Para engordar o pecado Da maldita realeza!

E as vozes da natureza Em Caiboaté silenciaram; Nem os pássaros cantaram Sobre a pauta das lonjuras; A paisagem, a cultura, Tudo foi se transformando, E as flores foram murchando Pois não havia mais ternura!

Se há razões que expliquem, Isso de pouco me importa; Pois minha gente foi morta Sem um pingo de clemência! Ensanguentaram a querência E hoje, não é diferente, Anda morrendo tanta gente De fome e de violência!

Vejam, vejam e sintam senhores, A guerra não terminou! A civilização gerou Seus heróis, seus monumentos, Usinas, medicamentos, E construiu seus arsenais; Criou projetos espaciais, Fez de tudo pela ciência,

Só não criou a consciência Que é preciso amar a seus iguais!

Por isso, estou de volta Das profundezas do tempo. Eu sou o Prolongamento Do sangue dos ancestrais; Sou a voz das nações tribais, Raiz da cultura Santa; Sou o bugre que se levanta; Abram cancha, pois renasci, E trago um grito Guarany Corcoveando na garganta!