Alma em Verso
Poesia

Um Retrato do Meu Pago – Kayke Mello

Kayke Mello

II Festival Unidos pela Tradição (Virtual) - TapejaraPublicado em

Meu pago é retrato antigo Na parede de um museu, É um rangido de carreta Que à memória se prendeu, É o canto claro do galo Do dia que amanheceu, É o cavalo num potreiro, Berro rude de um terneiro Que da tropa se perdeu.

Meu pago é o mate encilhado Nas manhãs de primavera. Corruíra que fez seu ninho Pra mais um ciclo de espera, Sombra frondosa de copa Tal figueira de tapera, É um verso bruto, rimado, Mas que é feito de bom grado Transcendido de outra era.

É o silvo de um João Barreiro Anunciando sua morada, Erguida de encontro ao sol Numa estronca serenada, Que depois do rancho feito, Recorrendo sua volteada, Trás no bico uma pitanga Que roubou, perto da sanga, Um regalo para a amada.

É um pago feito de imagens Dialeto de onde eu vim. É um sentimento terrunho Genuíno qual curumim, É o meu princípio de terra Passado, presente e fim E por mais que eu calce espora, Alce a perna e vá embora, O meu pago está em mim.

Por isso eu canto meu pago Com olhares sensitivos, Pois as pinturas do campo Tecem versos lenitivos, E a melodia dos ventos Trás sotaques primitivos. Fecho a barbela do freio E até o ringido do arreio Faz copla pra os motivos.

Meu pago ainda é o mesmo Do viço dos ancestrais. Tem água nova correndo Da costa dos banhadais, Tem os olhares sinceros Que não se mede em reais, Tantas porteiras fecharam, Algumas coisas mudaram Mas os valores jamais!