A Casa Primeira – Kayke Mello
16º Bivaque da Poesia GaúchaPublicado em
A casa primeira era simples de estrutura, De paredes antigas pintadas de história. As portuguesas sustentavam a cobertura. Por ser a primeira, eu a trago na memória.
As janelas de ver o mundo eram amarelas Com flores que desabrochavam na soleira. As abelhas se debruçavam sobre elas, Assim era o rosto desta casa primeira.
Ali fui criado entre os bichos e o tempo. Cenário altivo, cachorros e pitangueira. O pátio era grande praquele “atempo” Aos olhos do miúdo para a casa primeira.
“Os Fundos” fora palco de muitas batalhas Dos verdes soldados com a alma guerreira. Nas trincheiras das folhas imensas muralhas, Foram fiéis escudeiros da casa primeira.
Também foi abrigo para os gados de osso. Foi cerca, potreiro, corredor e mangueira. Foi açude e palácio no meu sonho moço. Pousada de pipas foi a casa primeira.
Chegado o domingo com a família reunida E a frente da casa se apinhava de gente. Na hora da bóia: - Tá pronta a comida! Pra o rancho emponchar tudo e todos calmamente.
A paz domingueira aos poucos se agita. Alguns apreensivos com o que há no estádio. Já eu me conforto ouvindo uma coplita No tranco milongueiro das ondas do rádio.
E quando a chuva abria a estação dos verões, As mãos das portuguesas viravam cachoeiras Banhando melenas, corpos e os corações Do piazedo a brincar nas águas passageiras.
Mais que morada tens raízes ancestrais, Cruzando intempéries com sua alma inteira. Rangem as dobradiças que firmaram meus pais Para soar o teu canto, oh casa primeira.
A sexta da rua, embora a primeira, Ergueu-se dos sonhos de quem planta esperança De um dia ter rancho, piazote e parceira. Quem semeou o tijolo colheu a bonança. O tempo surpreende muito mais que os encalços. Meus filhos já buscam teus frutos pitangueira E correm felizes com os pisares descalços, Trazendo mais vida para a casa primeira.