Alma em Verso
Poesia

Um olhar Antigo - Jurema Chaves e Negro Jaru

Jurema Chaves e Negro Jaru

17º Bivaque da Poesia GáuchaPublicado em

E o sentimento que escreve, palavras tortas no más... Palavras bem lá de trás, um tempo de cosas buenas De madrugadas serenas em que as cambonas chiavam E os galos inda acordavam,melodias pelas casas, Os guardiões abriam asas, de sentinelas na pampa Arreios mantinham a estampa, de galpão, junto a um borralho Lá fora o meu pingo, um raio ,numa carreira de campo! E neste Universo é que acampo quando a saudade maleva Quer resgatar-me das trevas do gelado apartamento Gineteio os pensamentos, com fúrias de temporais!

Que tempos bons gauchada, que o tempo arrastou consigo No sonho buscando abrigo, quando a saudade inclemente Crava na alma do vivente esporas bem afiada Rondando insônias cansadas, trazendo velhos fantasmas Pra barulhar no silêncio que me ronda as madrugadas...

Olhando assim esse quarto, no alto de um edifício Tão diferente do rancho, que foi morada e refúgio Pras tantas chuvas e estios. Tudo parece vazio, sem campos pra verdejar! A lua fica distante, me olha sobre um mirante Que fica perto do mar!

As ondas quebram na praia, se debatem no rochedo Quebra o vidro dos meus olhos, pra saudade gotejar! Na cuia um mate lavado, representando o passado Que sequer posso esquecer, Troquei a terra e os potros, o arado e a enxada, Pra revirar madrugadas nesse solo de concreto...

Aqui distante eu descubro que minha alma de campo, Não tem mais campos pra andar, Apenas calçadas frias...

Até a estrela Dalva me ficou tão mais distante Que não a consigo encontrar Não mais o calor do pala, não mais o fogo de chão Não mais parceiros pro amargo numa charla de galpão

Vou cabresteiando as lembranças nesse brete de cimento Que agora me aprisionei, Buscando rastros na poeira, uma cancela quebrada, Que sem querer a fechei, numa tarde mormacenta, Quando deixei o meu rancho, cruzando a estrada real, Pra habitar o vazio, de um quarto todo gradeado E como um bicho encurralado, ruminando noite adentro.

Busco o azul do meu céu e nada vejo, Só lumes falsificados Rebrilham pelas vitrines seduzindo o ser humano, Com sua força ilusória, vai mudando a trajetória De rudes homens campeiros, Que se perdem sem luzeiros, sem sonhos sem ideais Puxando a própria carroça, pra o pão de cada dia!

Que tristeza ver o mundo, nessa janela embaçada Nesse silencio ruidoso que pisoteia meu peito, Com a força de um potro xucro, sem maneias sem buçal Apenas pisa, escarceia, tripudia, sapateia No que restou de um gaúcho, que se perdeu nas esquinas Nessas mazelas da vida.

Numa ânsia desesperada de encontrar, Resquícios de minha gente, Eu dou de mão num radio velho Das poucas relíquias que me vieram na mala, Além das já retratadas... E junto do meu radinho, vou campeando uma estação, Que me traga nesta noite, um vocabulário de gente nossa Não precisa ser de roça, mas que não seja estrangeiro! Pois veja, sou brasileiro, e não compreendo este inglês Não rima com os meus apêros esta linguagem de louco Que domina pouco a pouco, e, nos tomando de vez.

A lembrança da mãe velha me vem em tom de retruco: - Meu radio ficou maluco? Já não traz meu tempo antigo! E eu lhes digo meus amigos, já não sei mais quantas luas Que escuto a mesma canção!

Nestes meus olhos antigos, que foram serra e fronteira! Que foram a várzea parceira, pra o gado e pingos de lei Que foram tantos de amigos! Que nunca foram sozinhos, em tempo algum nesta vida Que foram fandango e lida!

Olhos que foram rodeios, também vararam invernos Empunhando ventanias! Foram milonga e poesia Nas voltas de um mate Bueno!

Digam-me o que fazer deste olhar antigo Que não enxergam futuro. Que retratam dolorido um tempo que se perdeu! Que foram mãos estendidas Que foram oferta e guarida a tantos índios andejos, Estes meus olhos antigos, foram amores, regalos Foram paixões por cavalos, desde meus tempos de piá, Estes meus olhos antigos, que, desbotam pouco a pouco Confrontando em dias loucos, cor de sangue à céu azul Estes meus olhos antigos, que foram rancho e encilha Serenando nas flechilhas, dos campos verdes do sul!

Se ao menos estas lembranças calassem minhas perguntas Não acordassem a saudade que vive a me atormentar! Talvez num dia abençoado, eu me quedasse estafado De tantas cheias no olhar! Quem sabe um dia, eu descubra nesta procura infinita Que em meu olhar se reflita, o verde dos pastiçais E busque o rumo dos campos, um sol-pôr azulecido Meu olhar entardecido Encontre o rumo, pra voltar!