Tropilhas de afagos
Amadrinhando a saudade Vai a lembrança mais linda Que guardo dentro de mim Como esporas afiadas Cortando gritos silentes De ausências e desejos Marcas do tempo no espaço Que nos separa e nos une Como um frêmito de amor
Nos campos do coração Florescem sonhos, encantos Que as vezes o desencanto Faz o sereno do pranto Nublar o vidro dos olhos Onde os dedos da ternura Moldaram a tua imagem No pedestal do meu peito Que, com o passar do tempo Enraizou-se na alma
O destino, potro xucro Que não respeita alambrados Leva tudo pela frente Só os sonhos ficam, insistentes Levando a alma da gente Num vôo além-olhar Num ímpeto alucinado Voando, paralisando Buscando ninhos desfeitos Colecionando momentos Formando o livro da vida
São cicatrizes que ficam Pelos caminhos da alma Que a poeira da saudade Vai cobrindo lentamente O destino vai regendo A tropilha já cansada O olhar perdido, pra o nada Na face, a marca dos tempos Na voz, o som das distâncias Mas no peito, a mesma ânsia De andar, andar e andar Sorvendo gotas que restam De uma luz crepuscular
O tempo, contando as horas Vai dividindo em espaços E no relógio do peito Um tic-tac sem jeito Querendo pedir-te ainda O refúgio dos teus braços Pra descansar minhas noites Todas insones, que trago, Na doce serenidade Desses teus olhos profundos Que trazem o encanto dos mundos Em mil ternuras e afagos
Fui desfilando as lembranças No corredor da memória Via a aurora dos teus olhos Tornando a vida mais vida Num poncho ardente de anseios Me embretei nos devaneios E voltei no tempo, a sonhar Tuas mãos dentro das minhas Buscando o mesmo horizonte Beijando o sol das manhãs Como dádivas de Deus Os teus dedos delicados Bordavam juras, calados Passeando dentro dos meus
Mas isso já faz tanto tempo Que esqueci de contar Quantos tentos de saudade Já trancei com a solidão Mesclas de risos e prantos Que o tempo não apagou Herança plena de afeto Esse sublime dialeto Que uniu nossas almas Numa presilha de amor
E assim fui me dando conta Que nos campos do esquecimento Não consegui te deixar Ainda busco teu rosto Em cada rosto que vejo Pois emponchaste meus desejos Numa distância infinita Num laço de amor tão forte Que as lonjuras e ausências Não conseguem destruir Mas esqueci de esquecer-te Porque não posso perder Minha razão de sorrir
Não posso perder recuerdos Matizes de primavera Que deixaste para mim Minha pandorga de vida Solta o rumo dos ventos Que as mãos não podem alcançar Mas que nas asas do sonho Busca teu riso de paz Este poder infinito Leva a nudez de meu grito Pedindo que não te vás
Ao menos, não vá de todo Retornes de quando em vez Para trazer-me um sorriso Uma gota do teu olhar E manter viva a esperança Da minha alma criança Que insiste em te procurar Em acalmar esta ansiedade inquietante De buscar-te, de reencontrar-me em ti Em um mundo de ternura Que eu sei, existe Nuns olhos morenos, tristes Os mais lindos que já vi