Apenas um Poeta Louco
Não me ofereças assim o teu sorriso Pois em mim, não há mais tempo pra sonhar Teu riso ascende em mim tantos anseios Mas a mão do tempo, já me botou o freio E nublou meus olhos que, por sonhadores Fingi não te ver, te remirando A cada passo que estradeio, te buscando Mesmo sabendo, que, não pode ser!
Tu tens um sorriso perolado Eu tenho a palidez no meu sorrir Tu tens a plenitude da alvorada E eu tenho o entardecer no meu porvir.
Tens esses olhos verdes- marejados E os meus se desbotam pouco a pouco... Tens a doçura - lírios perfumados E eu sou, apenas, um poeta louco!
Tens negros cabelos ondulados E eu tenho a melena encanecida Tu tens teu passar em movimento E eu, passos lentos, arrastando a vida.
Tu tens os pezinhos de princesa E eu tenho dois pilares de concreto, Tudo tens o encanto e nobreza Eu sou apenas, um mendigo desse afeto
Tens na pele a maciez da seda E eu tenho o sol demarcando o rosto Tens esse olhar de santa, que me encanta E eu tenho esse olhar de sol já posto. Tu tens a voz de um canário belga Eu tenho um ruidoso cata-vento Tens a face rosada como pétalas E eu tenho cicatrizes de cimento.
Tu te envolves em xales de rendilhas Eu só tenho um poncho-pátria desbotado Tens o veludo nessas mãos macias E eu tenho dedos rudes, calejados
Tu carregas no peito mil luzeiros Enquanto os meus se apagam um a um Tens, aos teus pés, o mundo inteiro Eu tenho apenas, esse lugar comum
Tens toda a riqueza, vida minha E eu nada tenho pra te oferecer Eu só possuo o consolo da poesia, Que me chora e me abraça todo dia Pois é ela, a razão do meu viver.
Não poso aceitar teu amor, as tuas juras Há um mundo de distância entre nós dois, Se te pareço ser, uma fonte de ternura Porque aos teus pés minha alma se depôs.
Eu sou um angico que não reverdece Tu és uma flor ainda em botão, Guarde teu amor como uma prece Eu não passo de um falsário da ilusão.
Não posso esperar que tu, um dia Dividas teu sonhar doce comigo, Não poso te punir com minhas penas Ah, como eu queria viver esse castigo!
Ser um porto pra ancorar teu beijo Ter um tempo pra pedir a Deus Que me pudesse matar esse desejo Enganar o tempo entre você e eu.
Mas, só saudade me será parceira Por tudo que sonhei e que não vivi Enquanto dormes a sonhar, faceira Eu já nem sei se vivo, ou se já morri.
Feliz quem fez de amor o mundo Divinas são as mãos, que me socorrem... Mintas outra vez, e desse amor me diz Pra que eu possa, então, morrer feliz Como somente os poetas loucos morrem !