Alvorecer Coemitã
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Quando o dia amanheceu havia um mistério no ar... Era primavera...Primeira vez que as rosas brancas em botão Dançariam o baile do amor, no jardim da inspiração.
Mas, naquele dia, o sol não amanheceu dourado. Amanheceu encarnado, porque não havia mais ouro Nos cachos louros dos trigais, Nem esperança na dança dos milharais... Nem o alento das canções matinais ao vento... Naquela manhã não havia a fantasia De um branco botão de paz!...
Aquele dia não parecia Mas era o primeiro de primavera... E amanheceu encarnado, rubro, ensangüentado, Porque na noite anterior Eles passaram levando tudo, não deixando quase nada... Nem mesmo a certeza de outra alvorada...
Passaram feito um furacão Sobre negros fletes- fantasma, Trazendo, nas mão, espadas Manchadas de sangue...
Passaram quase voando... Matando os pássaros, arrancando as flores. E, incendiando a santa- fé das casas de barro: Amassado com pés de Anãs, Marias, Joanas, De Pedros...Josés... de Joãos- de- Barro Escultores, senhores da arte da fé...
Mas eles esqueceram, À beira do caminho, um ovinho no ninho! E eles esqueceram, também, em meio às cinzas do arrebol Da tarde de inverno anterior, um pedacinho de sol -Calor matinal, chama de esperança...
...Que na manhã seguinte aqueceu uma sementinha, Perfume que se mantinha no ventre da Terra-Mãe. E aqueceu também o ovinho... ...que naquela manhã, a manhã seguinte se desfez do pavor da guerra, Com a semente que a terra guardou, Em canto...em flor... A flor que apesar de pisoteada... ...violentada, soterrada. Se manteve perfumada, para tormento daqueles que preferem o cheiro da guerra...
A flor, que teve forças para renascer quase do nada... dos gritos livres das bocas exangues, que eles tentaram afogar em rios de sangue.
Aquele dia, o dia seguinte, Amanheceu assim: o horizonte encarnado E um anseio de paz em botão, Num mistério a desvendar- o mistério da Poesia, Que não tem com matar... e nele, um desejo incontido De perfumar...de voar...de recriar, Recomeçar, reinventar tudo de novo!
E o pedacinho de sol, que restara do arrebol, Se fez chama latente Aquecendo o ovinho que restou no ninho... E o ovinho descascou... E um pássaro voou...e encantou... E outro pássaro voou... e cantou... E outro... e outro...Milhões de pássaros Voaram e cantaram em refrão pela paz...
E um botão de rosa se abriu... E outro botão se abriu... E outro...e outro...e outro floriu... Rosas e rosas brancas dançando o baile das flores Agitando o porvir.
E o vento minuano, o coreógrafo pampeano Fez-se invento, ventania Criando a coreografia, encanto tupi-guarani... Que ao som de flautas andinas e canções ameríndias Elevou as pétalas brancas dançarinas E o encanto dos pássaros em refrão, para a dimensão do sem-fim.
Como se o jardim da inspiração fizesse dos pássaros em canto E das pétalas brancas- acalanto Coreografias Em forma de coração... ...Coreografias pela Paz, Especialmente criadas para aquela manhã Que amanheceu encarnada, avermelhada... ...Rubro cenário para o vôo libertário dos pássaros em canto e das pétalas brancas, Que não tem como conter no ALVORECER COEMITÃ.