A Taça de Vinho (Em Três Movimentos)
IV Festival A Poesia nos Une - TapejaraPublicado em
I A última taça de vinho, Lhe alcancei com a mão canhota. Pois este é o lado que importa, É o lado do coração. Delicada situação De uma breve despedida, Quando a lágrima - escorrida Beija a boca em solidão.
A última taça de vinho Não teve brindes - sorrisos... Falou-se o que foi preciso No más, a boca serrada. A garrafa assentada Junto a mesa da janela, E o rangido da cancela, Convidando a caminhada.
A última taça de vinho Foi um Tinto, rubra cor. Tal qual o nosso amor Nascido em safra boa. Teve vento e garoa, Teve frio e viração, Terruá em formação Que a vindima não perdoa.
Ficou a taça vazia E um vazio de sala inteira. Tua ausência na cadeira Entristecia o caminho. Pois fiquei ali, sozinho A olhar pela janela Ouvindo o som da cancela Com a última taça de vinho!
II Depois daquela taça Vieram outras, e mais outras... Alguns vinhos de safra potra, Jovens em formação. Já outros envelhecidos Pelo tempo, bem curtidos Na paciência de um porão.
A próxima taça de vinho Veio de forma calma. Embriagou-me primeiro a alma, Depois corpo e sentimento, Também me trouxe alento De que a vida se reinventa. Pois a brisa e a tormenta São crias do mesmo vento.
Já era alta a madrugada Quando destapei a boteja. No ímpeto de quem deseja Ganhar o céu do poema. E tornou-se mais um tema, A próxima taça de vinho Campeando outro carinho Que pudesse valer a pena.
Era noite de lua nova Nos fundos deste rincão. Havia um fogo de chão E um rádio cantarolando, Aos poucos fui me alegrando, Com a próxima taça de vinho, Que na sala armou seu ninho Com a lua já clareando.
E clareou o dia na pampa E logo encilhei meu pingo. Pois enfim, era domingo Dia de aliviar as penas... E aproveitei mais um tema, Ao chegar no povoado, De cavalo adelgaçado E reluzindo as nazarenas.
III Abre a cordeona moreno E canta bem do teu jeito. Que hoje o dia é de festa, Chapéu tapeado na testa E o lenço atado no peito. Golpeia um trago de vinho Para molhar a palavra. E cante um verso bonito destes do teu proscrito Crioulos da tua lavra.
Que o povo vem se chegando, Os Mirandas... os Antunes... Tem gente lá da Limeira, Os Soares da Carreteira Pilchados como o costume.
Abre a cordeona moreno Que o povo veio te ouvir. E puxe aquela vaneira vaqueana lá da fronteira Fazendo a poeira subir. O Nico já veio pronto, Esbarrando um redomão. Que cena linda de campo Cochilando junto ao banco Mas com a “boteja” na mão.
Veio chote e rancheira... Veio polca e milongão... E o moreno abrindo o peito Cantando bem do seu jeito Floreando uma de botão. São assim nossos domingos Junto ao rancho da Mimosa. Tem a sombra da ramada Donde toda a gauchada Gastam “os pila” e muita prosa.
Enquanto ronca a cordeona Na tarde linda e comprida. A minha gente de campo Vai buscando o acalanto Tirando o peso da lida. Abre a cordeona moreno Sonando "devagarzinho..." Que vou matar a saudade E buscar a felicidade Num outro trago de vinho!