Noites de Inverno
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Como esperança de pobre, que nem estrada real, são compridas, por igual, as tristes noites de inverno...
Meu rancho é todo de prata, porque num furo da quincha o luar entra em chispaços!
E pelas juntas e frinchas dos torrões de pau a pique, o vento passa zunindo lembrando guasquear de laços.
Solito com meus penares forcejo pra cochilar; escuto o leve roçar do ramerio da ramada, onde, de certo, a geada, seu poncho branco estendeu.
Dentro da noite velha vão galos amiudando.
São as guitarras da madrugada que estão floreando...
Olho pra dentro de mim e charlo com o pensamento;
na fumaça do meu baio, misturam-se no momento, visões que passam num raio, atropeladas em bando;
Guascas de calça e perneiras, em pilungos enfeitados com boleadeiras, sem ter mais, o que bolear...
Potrilhos tomando vinho, redomoneados por um gringuinho, que monta pelo lado de laçar...
Tropeiros em automóvel, engravatados, apartam gados batizados como gente...
Cruza agourenta uma coruja; berra um sorro teatino na canhada; ouço o rufo das patas duma eguada agrandando o mistério da coxilha.
Meu cusco se desenrodilha. Bate a cola no portal enluarado e começa a rosnar para o silêncio como se algo enxergasse, apavorado, o que olhos humanos não enxergam...
Quem sabe; — alguma alma penada rogando por velas e orações.
Epa! Amigo - despacito; Não é reiúno o potreiro nem de viúva o que encerra. Hai dono pra quem se dê, um Deus te Salve, — a lo menos;
É tudo várzea, amigaço, pra mim e pra o meu picaço; Não hai cerca que me ataque nem porteira bem fechada.
Ando tropeando lembranças pra negociar nas balanças da Charqueada da Ilusão...
Não botou tento paisano? Sou Blau Nunes recordando noite igual, de antigamente!
Não te grudes às tuas prichas; Fixate no meu conselho; inda vais ver neste pago, o Guasca apanhar de relho.
Bombeia o que vem de tiro. Vai dar bom peso Patrício! Paga bem o sacrifício de andar tropeando alta noite.
Me fixei no maneador do tropeiro da Ilusão.
Na ponta vinha a cabresto, enlaçada em focinheira, a maior prenda campeira, o vulto da Tradição.