Alma em Verso
Poesia

Cordeona

Juca Ruivo

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As minhas noites de guasca bruto, muito mais largas do que as minhas penas, noites amargas, quando serenas, não são tão largas quando te escuto.

Cordeona! Quando te escuto pelas noites silenciosas, nas tonadas harmoniosas que de teu bojo se expandem, escuto a voz do Rio Grande, chorando o fim duma Raça! Então, — cordeona, — perpassa veloz em meu pensamento, e que recorda o lamento da tua triste carcaça:

Quando o silêncio despertas com tua langue sinfonia, refletes a nostalgia do Índio e do Português! E se te exaltas, por vez, caprichosa e altissonante, és a audácia Bandeirante e a fidalguia de Espanha, pois tua sonância estranha, tem “salero” e intrepidez.

Quando acordas o escampo, onde o teu som se esparrama, revives o velho drama da formação Gauchesca. És bárbara e és quixotesca; e se a fremir te extenuas, lembras berros de Charruas em potreadas nas fronteiras. Nos baixos das tuas hileiras, anda o ritmo “Ariri” dum cantochão Guarani, Nas reduções Missioneiras.

Evocas, quando tu rompes no tropel das seguidilhas, clarinadas Farroupilhas, entre brados e descargas! Relembras o ferro afinco dos “finca-pés”, — bem na frente; e dessa mescla fremente de sons que guardas no peito, Cordeona! — certo, foi feito o Hino de Trinta e Cinco!

Assim, cordeona, — Acompanhas na tua velha cadência, do esplendor à decadência, a Raça que foi padrão! E quando pela amplidão tu cessares de vibrar, há de ser pra acompanhar num derradeiro repuxo, os funerais do Gaúcho na cova da Tradição!

Feliz do Guasca, — cordeona, que te conhece os segredos; que arranca a alma com os dedos e o coração traz à boca; que traduz a ânsia louca e o sentimento que o lavra, substituindo a palavra por tua linguagem rouca.

Oh! velho órgão crioulo das catedrais da planura!

Teus gemidos de amargura são penares de alma inquieta, de algum Gaúcho poeta na peleia desgarrado e que cumprindo o seu fado inda implora uma oração.

Quanto a mim, é devoção ouvir-te a música antiga, porque és a melhor amiga dos que amarguram na quieta...