Alma em Verso
Poesia

Todas as gaitas

Juarez Machado de Farias

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Uma goela aberta e linda Sacramentou-se Cordeona, Alma desperta e chorona Pro coração dos cantores, Abrindo invisíveis flores Na solidão temporona!

Na infância, é gaita-de-boca, Iniciação de desejo Que ensina aos lábios o beijo, Por certo, a paixão mais louca. Herança canora e rouca Pro adulto sem realejo.

Botões segredam milongas Na pelúcia dos meus dedos. Ramadas erguem, bem cedo, Sarandeios e risadas Na cordeona escancarada Que a tudo faz entremeio.

Aurora grande nos cerros, Garbosa “gaita piana”! Mais guapa e mais haragana Branqueando a tez do teclado, Parelheiros enfrenados Rufando na tarde plana!

Aguada farta pros dedos Num princípio de coxilha. Canções - numa corunilha - Chiando no braseiro De uma calhandra num arame Uníssono canto que expande Quando o fole desapresilha!...

Cancela aberta pro mundo, Cara a cara ao sol do leste!

Meus braços correm pros teus Porque me dói a ferida Que alguma adaga atrevida Sangrou no punho do adeus. E o gaiteiro alcança Deus, Sem se mandar desta vida...

Estampa larga de umbus Ornando a cara das casas... Fogo-de-chão noutras brasas Calando na alma entanguida. Há uma calhandra escondida Nesta cordeona sem asas.

Motivo de cada ronda, Hóstia comum dos viventes... Botões e teclas - sementes Na terra boa das notas - Imitando aves remotas Nalgum passado presente.

Raiz de vento e guitarra Na estação da inspiração. Abre o riso do galpão, Estrelas descem pra ouvir A voz da gaita se abrir E cantar o coração...

Cambona cheia pro mate, Água azulzinha da fonte!... Fica mais perto o horizonte, Madrugadas soltam galos, Relincham tantos cavalos E o sol rebrota do monte!

Arados florescem - tesos! - Na pauta gris da tigüera. Vão tecendo a primavera Nos espinhos indefesos... Maduram milhos - acesos Nos dentes áureos de espera...

Era de luz natural Alvorando o rosto escuro, A gaita é um quintal sem muro, Mostrando o fruto estival!... É uma prece sem ritual, Tempo sem hoje e futuro.

Postal de rara visão, Porteira aberta no pampa Infinito encantamento De uma flor de tarumã... Eu quero chamar-te “irmã” Quando a alma se destampa Para cantar e cantar!... Pra morte – não há lugar. Só pra uma canha da guampa.

Se meu poema é um vazio. Lindo murmúrio de rio, Siringe do Camaquã!

E quando eu me for quero todas as gaitas Se abrindo no meu enterro! Teimoso e alegre cincerro Espargindo notas sonoras a dizer que eu não morri. Ao contrário: renasci Em cada baixo, em cada nota!