Lira de Campo e Rio
A paisagem que eu carrego na garupa da lembrança é uma sanguinha cantora, olhando quem vai na estrada... o milharal empendoado que vai chamar caturritas... e uma carroça esperando rever os mesmos caminhos...
Uma guampa corticeira rondando o mesmo banhado, erguendo a flor do cabelo feito um poente sinuelo que o punhal da noite aflora em um dia sangrado...
A paisagem que eu carrego é um rosto de curunilha que a gente, na sombra dela, ficava mosseando trama pra renovar um arame e segurar estes campos alados de primavera!...
Uma talha sempre cheia no canto azul da varanda, cacimba dentro de casa!... Prolongamento daquela destampada, aberta às rãs, se acordando nas manhãs pra chiar uma chaleita, revigorar nossas vidas costeiras do Camaquã.
A taleira inda vigia a paisagem que se acampa ao redor da casa branca onde morava a Dindinha... não se aborrece com nada, só quando escuta um machado que canta no picador, vendo lenha pra cozinha.
O galpão velho quinchado, que é vizinho do paiol, se acorda com a galinhama, bem na cancela do sol.
O milho dorme na pilha, pra debulhar-se com a mão, estrelando no terreiro, no diálogo matreiro da festa da criação.
Mais um dia que desponta!... Outra vez, o caponete vem orquestrar estes campos e os dedos do minuano encontram harpa terrunha nas cordas do santa-fé. Hay um perfume de lenha no prelúdio do café.
-Como não ser feliz hoje? O mate, amargo de apojo, é miniatura de várzea em seu corpito de sanga sempre germina a esperança de caminharmos sem trégua. E no poente entristecido, encontrar algum sorriso que nos acenda o carinho renovado a cada léguas.
A paisagem que eu carrego na garupa da lembrança guarda o rancho ensimesmado no rincão da minha infância. Imagens que eu não vendi, não troco - nem vou perdê-las! Porque no largo reponte são alegrias sinuelas.
Dirão: "é pura saudade de um tempo que já morreu" Respondo: "não, é meu berço, começo de quem cresceu e busca estrelas passadas pras futuras alvoradas e noites de vento e breu."
Respondo: "é o lindo lirismo dos avessos da existência, é uma gaita galponeira soletrando novas notas. Não são lembranças remotas, nem saudosismo alienado! São raízes de um passado que desenhou estas botas e fez tapeado o chapéu pra que meus olhos escuros enxergassem os futuros feito luzeiros no céu"