Alma em Verso
Poesia

Um Breve Conto de Amor - À Uma Jovem com Síndrome de Down

Joseti Gomes

IV Festival A Poesia nos Une - TapejaraPublicado em

Os olhos tinham o brilho Das estrelas mais bonitas Que os dias do “Anacleto” -Acostumado a ouvir Colhiam nas noites longas Num rancho, fundo de posto, Quando o silêncio dos grilos Dava vau pra refletir…

“Que par de olhos tão lindos!” Às vezes, em frente à porta Da casinha centenária, Às vezes, junto à roseira… Cabelos longos, castanhos, Pele rosada, riso frágil… Vestes claras de algodão, Feito a flor de laranjeira.

De que importava os boatos Entre os copos do bolicho? O moço sempre calado, Não tinha tempo pra prosa, No mesmo rastro que ia Voltava, batendo cascos Para espiar, com cuidado, A doçura de uma rosa…

A terra, sempre, agitada, O coração, disparado, E a brisa, por testemunha, Desse romance discreto, Que nasceu e ficou preso Nos versos que escrevia, Nos sonhos bobos do moço, O mandalete: “Anacleto”.

O moço andava nos campos, Nos galpões e nas cozinhas, Pelas voltas da estância Lidando junto à mangueira. Não se sabe, se por medo, Ou pela falta dos pais, Aprisionava as palavras, Naquela dita gagueira...

Carregava nos seus olhos A poesia estampada... Enxergava a brisa morna E a transparência do orvalho. Conhecia a cor dos ventos, A silhueta das chuvas E a correnteza dos rios Desenhada pelos galhos.

Quando atalhava caminho, Passando junto dos ranchos, Escondido, contemplava O sorriso da morena Que sempre junto à roseira Falava em outro dialeto, Por conta de um cromossomo, Na silhueta pequena.

Sem dizer uma palavra, Quanto amor represado... A guria rodopiava Coas rendas do seu vestido. O perfume que exalava Junto ao jardim de flores Segredava o seu olhar Praquele moço escondido.

Foi numa tarde morna De sesta, junto das casas, Que o Anacleto, em coragem Ultrapassou a porteira. Nas mãos, a rosa mais linda De um amarelo de sol Junto ao papel rabiscado Na solidão companheira.

Uma rajada de vento Veio roubar-lhe o sonho Quando soprou sem piedade Cravando o espinho em dor. Naquela tarde de sol Arrancou papel, coragem, Arrancou a esperança De um lindo conto de amor.

A guria, não viu nada, Além do vento gatuno Que engoliu o bilhete Sem que pudesse tocá-lo. A flor ficou no moirão Como um sinal, nada mais... E a tarde trouxe tristeza Pra quem partiu a cavalo.

Anacleto se sumiu Naquela nuvem de poeira Que ficou como cortina Pros olhos da linda flor. O tempo, quem sabe traga, Noutro dia, uma esperança De realizar com doçura O breve conto de amor

Crédito da fonte: À uma jovem com Síndrome de Down