Ofício de Carpideira
Quem de vós pode entender o rio que nasce e escorre em ladainhas cantadas sem nascente, sem vertente? Quem de vós empresta os olhos que secam pelas vigílias, testemunhando rosários de tristezas confessadas, num lamento murmurado que não escorre na face, que se agiganta sentido num verdadeiro motivo de chorar a dor alheia? Num rancho beira de estrada... Na casa grande da estância... Nas vilas do povoado ou na capela do vigário... De preto, todas reunidas... Em choro... Em ladainhas... Em pé, ao rosário, contritas... De mãos vazias partimos, solitos, das casas que não emprestam candeeiros pra iluminar a estrada que não permite voltar... As almas cegas, confusas se vão... nada se sabe do além... e os rumores, multiplicados, rezam a prevenção...
Ninguém cumpre esse ofício de rezar ou, de chorar com tal fervor, com tal sentido de dor! As almas pedem por luz em sua hora derradeira e ninguém melhor entende de acompanhar quem se vai, do que as mulheres sofridas chamadas de “carpideiras”!
Estão sempre nos velórios, ninguém sabe de onde vêm... Choram um choro doído, fazem de um jeito sentido como se fossem da casa... Como se fossem parentes... E enquanto se vela o finado, elas ficam ali, do lado chorando incessantemente.
Elas não mostram cansaço não cochilam pelos cantos... Choram contidas ou em prantos intercalando qual ato... Se interpretam de fato quem de vós irá julgar? A dor da parda se esconde nos labirintos do olhar...
Choradeiras de aluguel... Carpideiras de velórios... elas assim são chamadas... Mas olhem! Olhem direito! Possuem chagas no peito! Um filho partiu pra guerra... O marido foi levado Pela enchente do Uruguai... A filha, um malino roubou e, dizem que a abandonou nas profundezas das águas...
Olhem! Olhem bem! Existem sulcos na face! Trincou a terra do rosto pela ausência do rio... Pela ausência do “corpo” de quem partiu sem voltar, para ser velado por elas, no último sono do adeus...
Olhem bem! Elas choram! Choram o choro alheio... Choram por quem não veio!
As mulheres choradeiras rezam pedindo luz para alma que se despede iniciando outra viajem agora, rumo ao além... Logo vai ser plantado na estéril cama macia.... No mesmo chão que não brota, Pois, se enterrar semente morta, a terra morre também...
E os parentes vão chegando... Amigos e, outros curiosos... Elas com a mesma expressão, seguem nessa missão de velar a dor alheia... Rezam, cantam e choram... Choram, pois isso fazem tão bem... Numa vida empobrecida e sem mais nada a restar puseram-se, então, a chorar, chorar a dor das partidas...