De’ Lurdes e de Louca – Joseti Gomes
uaPublicado em
Loucura que chega sem data ou recado Que fosse, pra gente saber, de antemão... Loucura de dia, de noite, de tarde, De ‘Lurdes, tão moça, tão determinada, Carpia na roça o silêncio da enxada Que vinha com fome de destruição.
Com calos na alma, com sede nos olhos, Com nós na garganta e rangidos nos dentes, Varria os sussurros, soprados no ouvido, Corria pro campo a colher margaridas Enquanto sangravam as suas feridas Abertas nas noites de lua e de ventre.
Pisava nas flores, rajadas de vento. Pisava em rosetas, coroa de espinhos. Cruzava aramados, na lei das fronteiras, Se ia pra longe, tão longe de si E ficava parada, sem nunca sair De perto da casa com frestas e ninhos...
Na casa, no pátio, na estrada, no mundo, De ‘Lurdes disfarça e sente o vazio. No peito, a dor de uma chaga que arde, No dedo, um anel pr'acertar o juízo, De resto, um altar, mais nada é preciso Se a água não volta pro curso do rio.
As nuvens pesadas qual lenha pro fogo, Escoram a tarde, tristonha, que chora. Os raios acendem madeiras antigas, Em brasas e marcas, parelhas de canga, Na terra vermelha, que tinge, que sangra De'Lurdes, de novo, perdida nas horas.
Coberta de orvalho, plantada no rancho Depois do cansaço de um dia sem fim, De ‘Lurdes, de louca, de nada não tinha. Era moça da roça cosendo os remendos Nas horas compridas marcadas de tempo Em ponteiros fincados naqueles confins.