Água Limpa de Poço
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No ranger de uma roldana sobe um balde de alumínio, carregado de esperança. As mãos pequenas sustentam o choro das águas puras que deslizam das alturas dos olhos de uma criança.
Ficaram poucos registros guardados dentro da alma, das tardes e seus verões... Na beira de um poço fundo se puxava, com cuidado, aquele balde pesado cheio de água e canções.
Vó Cucha guardava o poço, como um tesouro sagrado. Da abertura, no centro, daquela tampa redonda, além dela, só os netos, podiam chegar bem perto para espiar lá pra dentro.
Lá embaixo, tinha um espelho que refletia as paredes revestidas em veludo... Tinha cheiro de umidade a carne desses tijolos, que encantavam os olhos pequeninos, verde-musgo.
O balde cheio, pesado, no balançar de uma valsa, muitas vezes não voltava. Rodopiando pelo ar, caia no mesmo instante naquele olho gigante do espelho, que se quebrava.
Vó Cucha nos permitia jogar pedrinhas na água que as engolia com sede... Os gritos faziam eco no vazio do poço fundo, e parecia que o mundo morava em suas paredes!
Noutras vezes, parecia que dentro daquele poço, com suas idas e voltas, a secura das gargantas, encontrava o seu destino. Gente grande era menino jogando o balde e a corda.
Porém, a velha guardiã conservava, em seu ofício, mistério em baldes vazios… Por que enchê-los de vida, nos goles, limpos, dos copos se a sede grande dos corpos pedia águas de rios?
Um dia, faz muito tempo, a água mansa da chuva, trouxe lágrimas doídas, trouxe ferrugem pro balde... Tampa, em cimento, lacrada. Vó Cucha pegou a estrada sem tempo pras despedidas...
No ranger de uma roldana, sobe um balde enferrujado para matar muitas sedes... Dos mistérios dos espelhos, brotam versos para o mundo no verde musgo em veludo que sobe pelas paredes...