Homens e Pátrias
Ronda noturna ao tranco largo coxilha alta e um mouro negro trocando orelhas, carrega destro, no lombo firme o andarilho. Poncho às estrelas.
Um assovio quebra o silêncio floreado ao léu. Prateia a lua! E o vulto negro contra o horizonte na imensidão de campo e céu. Abre as narinas sorvendo o aroma da noite prenha de planta e flor.
Cruzando o ar, pontos de luz vagam nos campos pintando cor.
Chiar de cascos, tinir de esporas, mascar de freio, som de barbela. E o mouro negro e seu campeiro cortam na noite o vento leve soprando nela.
A lua grande espia astuta o andarilho no seu andar cruzando pastos, sangas e grotas na imensidão da pampa nua sombra e luar.
Enfim... um marco! Sinal político da divisão de dois países.
No mesmo tranco o mouro negro segue a estrada. A mesma estrada, a mesma terra, os mesmos pastos e o mesmo vento, tropeando aromas todos iguais.
Ficou para trás a vã divisa de duas pátrias que ele cruzou. Para o campeiro fazendo rumos de nada serve aquele marco que lá ficou.
E nem o mouro mudou o andar o ar é o mesmo, os mesmos campos, o verde é o mesmo, tudo é igual.
O gado pampa, igualmente lá rumina o trevo no seu descanso rondando o cocho do mesmo sal.
Homens, os mesmos, buenos e malos, Fogões acesos, os ranchos toscos, luz de candeeiro marcando pontos na noite larga. Mesmos destinos a perseguí-los no tempo a fora. Também as mesmas penas e mágoas, duras e amargas.
A língua é outra, são outras falas, porém, nem tanto, pois se compreendem tal qual irmãos da mesma terra unidos sempre na mesma luta de homens livres, seja na paz, seja na guerra.
Muda a bandeira, trocam as leis seguem os sonhos e sentimentos. E aquele andante monge dos rumos nem se apercebe por onde andou.
O mouro negro trocando orelhas ao tranco largo, mascando o freio a bater cascos pelo caminho que não mudou.
Homens e Pátrias trocando sonhos, e uma esperança de paz nos campos de duas querências e um só pago.