Eterno Retorno
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Era rancho humilde, improvisado e chico, Em riba de uma ancha coxilha aboletado; Se via pastando aqui e ali pouquito gado, À beira dum açude, à sombra dum sangueiro. O dono, despilchado, fora outrora rico, Vindo de nobre sangue, com fino trato e gosto; Agora despacito ia, qual um pau- de- arrasto, Com pouca criação e só mixes potreiros.
E dizem que o taura, sem ter uma ermida, Na varanda reunindo a família que amava, Apelava pros santos, por seu drama clamava, Pedindo por reaver sua sorte perdida.
Mas vendo que um filho desde piazote Se inclina ao saber, tem cambicho pro estudo, Com mui sacrifício premia o macanudo; Vais pra capital, mas não frouxes a brida! Retorna- me um doutor! Dê pancas, rapazote! Sem dar nome ao touro, mui depois se meteu: _ Dos filhos varões que o destino me deu, o mais estudado vai pra campeira vida!
E dizem que o mocito, grato por tal amor, Jamais olvidara a essa tal profecia; Sempre relembrara o que o pai lhes dizia Na tarde distante, no antigo comedor.
Mas o velho gaúcho pe de da bobeira; Ele topa a parada, ele agüenta o rojão; Ele entra na nota, ele compra mais chão; E alarga as divisas e constrói e amplia; Ergue nova casa e galpões e mangueiras; Em campos de lei ele guarda o seu gado; E com prego e martelo um peão do agrado Põe a placa que reza: Estância Harmonia.
Em bailes, saraus, sua gente é bem-vista, No conselho dos grandes ele senta e é ouvido; Da mais fina seda de sua china é o vestido, Com trabalho e com fé a sorte reconquista.
Mas no alto o ranchito derreando se via; Iam ruindo os oitões nos alicerces antigos; Um angico lhe estende os seus galhos amigos, Mas o edifício aplastado se racha, se fende E morre o coitado, por não ter serventia, Lá sobre a coxilha, largado, esquecido. Para a peonada, para o patrão alforriado, Fora o posto velho da Estância Grande.
E dizem que o vento nas taipas soprando Das ermas ruínas, em quieta solidão, Trazia sofridas, em triste cantochão, Só vozes tristonhas o antanho chorando.
E o simples ranchito, antes pleno de vida, Que já fora testigo de amores, de beijos, De sonhos, idéias, projetos, desejos; Que fora a base, o suporte e o sustento Da estância maior mui distante erguida, Agora conhece, em seus prédios caídos, Nas vinhas desfeitas, nos muros tombados, A paz mui dolorosa do seu esquecimento.
Já nem era um rancho, nem posto mais era; Com as pedras arrancadas por tortas raízes, Ficou pros nhandus, pras codornas, perdizes, Restando lá no tope só uma triste tapera.
Mas o doutor aquele? O que foi desse moço? Pois não é que faz fama na sua Medicina!? Aos enfermos ele cura e mitrado ele ensina! O doutor Saint Pastous é campeado e festejado... Depois vêm as guerras e corajudo, sem alvoroço, Na Ponte do Ibirapuitã pelos feridos se desdobra; Na campanha de trinta ele dá pancas de sobra Chefiando o Corpo Médico sob o fogo cerrado.
E dizem que aquele baita teba gauchaço Que nos bárbaros combates heróico curava, Bem mais que o troar dos canhões escutava As palavras do pai, como que num rebencaço.
E findam as peleias e de novo vem a paz E já taludo o torena vai rebuscar na tapera, Entre oitões caídos e recobertos de hera, Pedaços lascados da infância perdida. É o eterno retorno que esperto no traz O tempo, ligeiro qual lambari de sanga, Idéias mais frescas escondendo na manga E homens de caracu que lhe topem a parada.
E Saint Pastous arremessa seus olhos certeiros, Boleando algo novo para reerguer o ranchito; E é com brilho no olhar que então prega o grito; _Hay aqui muitas reses! Vamos criar carneiros!
E se bem o planeja, melhor o realiza Da Cabana Leleque que existir se sabia Naquela Patagônia tão distante, tão fria, Um merino ele compra, animal de mi flor Que às fêmeas fareja mesmo em flaca brisa. E o embarca e o traz lá do Sul com cuidado; O clima do Rio Grande o faz mais assanhado E o carneiro aqui chega adoidado de amor.
Pois o doutor aquele dera um tiro certo, Eis que em carne e em lã se aproveita de tudo; Em sues sonhos ele vê a coxilha blanqueando, Caprichado rebanho indo por campo aberto.
E o tal patagão mostra mui Bueno serviço, Pois carneirada de lei ali cresce e ali berra; Vai pastando o capim, pisoteando a terra E, à vista do salgueiro, no açude dessedenta. O derreado Posto Velho ganha então novo viço E a paternal palavra se cumpre por inteiro; O médico buenaço vira fachudo campeiro E uma nova riqueza ali se acrescenta.
E dizem que depois, quem pegava do atalho Pras velhas ruínas, que de novo eram rancho, Topava com o doutor rindo faceiro e ancho, Sob a placa que dizia: Fazenda Posto Velho.