O Mistério da Flor Amarela
Fiz um mate bem cevado desses ditos “de patrão”, pra acalmar o coração e remoer os pensamentos, à tardinha é o momento da lembrança que maltrata, a saudade é madrasta e, algoz dos sentimentos.
O chimarrão, do fim de tarde tem um sabor de nostalgia, pois, perdeu toda alegria dos risos de antigamente. Quando o rancho tinha gente e o amor rondava o catre o sabor de cada mate sempre foi bem diferente.
Até os pássaros se foram, abandonando a paineira, e as formigas cortadeiras levaram as ultimas rosas. A grande “Acácia Mimosa” foi minguando e pereceu o jardim também morreu dessa estiagem amorosa.
Quando teus olhos de lua enfeitavam a minha tarde, teu sorriso era um alarde dispersando-me o cansaço; ainda sinto o teu abraço e o perfume de flor guria naquele beijo que consumia a noção de tempo e espaço.
Um dia, deixaste o rancho sem nenhuma despedida, ausentou-se da minha vida sem me dar uma explicação. O tempo é senhor da razão, pensava comigo mesmo, e, passei a viver a esmo eu, o cusco, e o coração.
As coisas foram minguando, e, o rancho ficou tapera, tudo morreu nesta espera do fim desta longa invernia. Foi-se embora a alegria emudecendo o meu violão, nunca mais fiz uma canção nem recitei uma poesia. Hoje, a dor faz contraponto ao sabor do mate amargo, e as reminiscências que trago são restos daqueles tempos, só me sobraram tormentos depois que te foste embora, e, com a tarde chega a hora de matear com o sofrimento.
As lembranças turvam a vista e fazem apertar o coração, encilho de novo o chimarrão pra dar um segundo galope; o meu peito tonto a golpe, esconde a índole chorona, que lamenta por sua dona, mas, não reclama da sorte.
A cambona chia ao fogo; parece reclamar de dor, meus olhos acham parador naquilo que restou do jardim. em meio à jujos e alecrins nasceu uma flor amarela, uma das coisas mais belas que veio ao mundo pra mim.
Aquela beleza selvagem refulgindo a luz da vida, parece ter sido esculpida pela Mão do Criador, representa que a linda flor traz nas pétalas a alegria, e, faz reencarnar a guria que me apresentou o amor.
Preciso agradecer a Deus pelo dom desta oferenda, por devolver minha prenda linda, faceira e cheirosa; No lugar das antigas rosas voltastes para a tua casa, o meu sofrer te deu asas e, tu retornaste: Mimosa!
Se, Deus te devolveu a vida por meio da flor amarela, deveria te plantar na capela em que dormes para sempre. Nossa casa, já não tem gente e, te faltarão os cuidados tudo está abandonado, restei só eu: sobrevivente.
O rancho está tapera e, o coração endureceu. Até o meu cusco morreu esperando a tua chegada. varei muita madrugada chorando a tua ausência, quando a dor vira dormência tu voltas, assim, do nada.
Preciso me acostumar com essas idas e vindas, pois, a flor quanto mais linda mais efêmera é sua estada. Por mais que esteja cuidada amanhã, talvez, pereça, e o sonho se desvaneça até a próxima florada.
Um dia, partistes daqui levando o meu coração, mudastes de dimensão deixando-me aqui sozinho; e, quando refaz o caminho, renascendo em meu querer não quero te ver morrer por falta do meu carinho.
Por isso, flor amarela eu peço que te vás daqui, pois, não quero viver em ti, os meus momentos febris. Tudo que eu sempre quis foi tê-la juntinho de mim e Deus te levou do jardim fazendo-me um ser infeliz.
Quando se for a estação e tu murchares teu viço, talvez, isso seja o indício do fim deste andar ao léu. Quiçá eu cesse o tropel e, encontre o meu parador, vamos reviver nosso amor nalgum cantinho do céu.