Dois Amantes
A vida (este parêntesis) entre nascimento e morte, É um intervalo de tempo com todo tipo de sorte... Pr'alguns cancha reta muito curta, vivida de forma agreste, Mas não foi pra o João da Nica, que viveu na plenitude Esta passagem terrestre...
Na ampulheta da vida foi o tempo e não areia, Nunca teve vocação pra dar ouvido a conselho, Lamber sal de outro cocho ou comer em mão alheia.
Moldou a mesma a seu modo, degustou-a dia a dia. Se esta lhe impunha muros plagiou a sabedoria Do musgo, que arraigado, contornou-os mui seguro, Sem alarde, sem apuro, forjando sua biografia...
Era tarde domingueira... O ocaso dormiu mais cedo prenunciando o desenredo. Leito de rio foi lençol, fez-se alcova improvisada, Quando a Rita fandangueira encontrou o João da Nica Se banhando nas aguadas...
Pois, quando desejos latentes se pegam desenfreados, O instinto vira patrão, a razão torna-se escrava, Virtude perde o pudor e o respeito, sim senhor, Não tem rédeas que o sustente...
Pelo mundo andar repleto de gente com má saliva, Nunca falta um boca larga pra dar c'oa língua nos dentes, Pois, sofrimento dos outros parece ser um unguento Pra este tipo de gente... Pracejou o acontecido, deixando o Juca da Rita Ciente do sucedido...
Se no coração de quem ama por certo cabe uma flor, Já noutro, que foi traído, só tem vaza pros espinhos, Não tem vez para o amor...
Foi resolvida a pendenga num acordo natural. Pois pra tauras desta casta ruminar tão só não basta, Lavar a honra é vital...
Quem tem a mesma ferida quer apaziguar a dor! Dez passos pra cada lado e o destino está selado Pro pior atirador...
Os pares, inebriados, figuravam no entrevero, Não importando se o sol, sem ter sido convidado, Se esgueirava pelas frinchas moldando o pó levantado.
Pois, a pedido do finado, que por taura e galhofeiro, Sempre dizia em bom tom - "No meu velório, parceiro, Não quero choro nem vela, quero gaita tagarela, Violão, pandeiro surrado, sustentando a marcação De um bordão bem compassado"...
Dois punhados de terra manchou o verniz das tábuas E a pedra tapou a boca de dois catres revestidos... O manto negro da Rita cobriu o adeus-solidão, Na lágrima de oração posta ao amante e ao marido...
Dois tauras, duas estrelas, cada qual com seu fulgor, Duas cruzes por penhor findando qualquer sonhar, Vem abonar a certeza nesta passagem terrena, Vida e morte, dois amantes, que um dia irão se encontrar