CASEREANDO
O despontar da estrela d’Alva Desfaz o tom de acalanto Do guitarrear milongueiro Da madrugada gelada. Não se ouvem mais os grilos E o coaxar incessante da saparia do açude, Tenores entoando árias, Encerrou o seu concerto.
Vez em quando um galito, Campeiro clarim do pampa, Executa o despertar Lembrando o findar da noite Àqueles nela imersos.
O braseiro Desfeito em cinzas Já não aquece.
Solito, o peão mateia Com o olhar perdido Na amplidão do pensamento... O alento do sono Não quis fazer-se parceiro Daquele que casereia. Somente reminiscências Paleteiam a alma rude, De agruras falquejada.
Julho aumenta a ferida Pela flor embrutecida Do inverno que se agranda. E uma lágrima salgada Se derrama pesada Por sobre o peito oprimido Pela saudade da prenda, Zelosa, a cuidar da prole, Na ausência do parceiro Que foi changuear o sustento.
O alvoroto dos cavalos no potreiro Traz à mente o rebuliço dos piás, Seus pupilos nas lides de campo, Faceiros, correndo a abraçar o pai A cada fim de tarde.
O calor da bomba Revive na memória Os lábios doces da amada. Que não aquece o catre Nessas frias noites de invernia.
É para prover o sustento Daqueles que lhe são caros, Que hoje cruza a noite A zelar um rancho Que não o seu.
Curtos dias pra o trabalho. Longas sombras Entre ocasos e alvoradas.
Ronca o mate, Cantam os galos, Relincham os potros. É hora de despertar Da noite dos pensamentos Pois há muito a labutar No dia que abre os olhos.