Mangueira de Pedra
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Velha mangueira crioula, Curral de pedra empilhada Que até o pastor da manada Bombeia com desconfiança, Ficaste como lembrança Da infância desta querência Guardando a mesma inocência Dos brinquedos de criança.
Dizem que foi o Jesuìta Que te ergueu nas solidões, Da fronteira, das missões, Do litoral e da serra Para que fosses a encerra Das primitivas tambeiras E das éguas coborteiras Mais livre que a própria terra.
E te plantaram no campo, Com metro e meio de altura, Meia braça de largura, Redonda ou de cantoneira, Quatro varas nas porteiras, Roliças e descascadas Como lanças encrevadas Nos buracos das tronqueiras.
E ali no aberto, aprumada, -Remendo nas sesmarias- Te ermanaste em serventia Ao laço e a boleadeira, Qual outra nota campeira Da nova sociologia. Prenunciando a trilogia Galpão, Rodeio e Mangueira.
Depois, ao berrar do gado, E ao relinchar da tropilha, Viste surgir na coxilha O casarão empedrado E o vulto desentonado Do galpão de frente aberta, Com santa-fé na coberta Qual um bugre empenachado.
Era o Galpão do Rio Grande, Era a estância que surgia. Vertente da economia Do Brasil Meridional Como um abraço cordial Aberto com natureza Exprimindo a singeleza Do velho pago natal.
E se o galpão foi o templo Da xucra democracia Tu foste a arena bravia Onde gladiadores novos Perpetuaram os corcovos Uma epopéia sem fim, Pra que o teu rude clarim Fosse ouvido noutros povos.
E na estranha sinfonia De corcovo e de guascaço, De berro e tiro de laço Dos monarcas dos galpões, Nas domas e marcações, Junto ao fogão da amizade Foste, o traço da igualdade Entre a indiada e os patrões.
E tiveste teus heróis, Velha mangueira retaca, Desde o piá de botar vaca, Mártir do poema campeiro, Até o chiru patacoeiro, Que para enlevo das chinas Fazia rédeas das crinas Do potro mais culmilhudo.
O tempo foi-se passando Modificou-se a querência, Mas tu não perdeste a essência, Pois mesmo de varejão, E até mesmo de listão Com tronco, seringa e brete, O teu vulto ainda reflete A infância do nosso chão.
Aos próprios irracionais Emprestas calor e afeto, Pois mesmo aberta e sem teto, És, vivenda hospitaleira, E a vaca que foi tambeira, Fica por ti, enfeitiçada, Passa o dia na invernada Mas vem dormir na mangueira.
Ao evocar-te, mangueira, Volto a piazito pequeno, Pés molhados de sereno, E ás vezes duros de geada, Campeando vaca extraviada, Choramingando de nojo, Pra depois beber apojo Com gosto de madrugada.
Por isso não admira, Mangueira de minha infância, Que a este pobre piá de estância Tu significa tanto, Como tu, sequei meu pranto Mas continuo aporreado Até ser emangueirado Na encerra do Campo Santo.