Gaucho e Colono
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Mais de cem anos já faz Que num arranco pujante Chegou da Europa distante Um vulto cheio de entono. Que vinha também ser dono Da nossa querência eterna E o guasca boleava a perna Pra receber o colono.
Desde então entreverados Dentro dos mesmos cenários Os dois vultos legendários Do pago continentino Entoaram o mesmo hino De fulgente trajetória E se embretaram na história Traçando o mesmo destino!
E ao longo dos territórios Que o gaúcho conquistava Vinha o colono e plantava Seus roçados e tapumes. Copiou do guasca, os costumes, As lendas e as diversões E até mesmo as tradições, Guardadas cheias de ciúmes!
E ao redor das sesmarias Dos vales e dos penedos, Foram surgindo os vinhedos No maior desembaraço, E a enxada, o machado de aço Entravam na sintonia Na mesma escala bravia Da boleadeira e do laço.
Foi o toque generoso Desse sangue de além-mar Que veio fortificar A raça, que então nascia. Dando a têmpera bravia Padrão de força e virtude Dessa fusão semi-rude Que despertou nossa cria!
Santo e bendito milagre Caldeado ao frio do Minuano, Filho do guasca pampeano, Filho da Itália e Alemanha, Entremeados na Campanha. Tão gaúcho, um como o outro, Tamanco e bota-de-potro Na valsa e na meia-canha.
Vejo um, riscando a fogo Nossas fronteiras de guerra, Outro falquejando a terra Na cadência dos arados E por fim, entrelaçados, O cabo da enxada e a lança Glorificando a pujança Dos nossos antepassados!
Qual dos dois é mais gaúcho Qual dos dois é mais Rio Grande? Se o peito de ambos se expande No mesmo sagrado anseio? Já não é mais o que veio Já não é mais o que havia, Rio Grande, hoje, é a sintonia Da lavoura e do rodeio.
Pois, se o guasca evoluiu. Para chegar ao atual, A velha fibra imortal Pelas épocas perpassa. E o Rio Grande se entrelaça Nesses dois tentos torcidos Que vieram, depois de unidos, Formam o sovéu da raça.
Eu te bendigo colono Desbravador primitivo, Não como filho adotivo Deste chão, santo e eterno, Mas como anseio fraterno Do velho pago bagual Que em troca de amor filial Te deu o amor paterno!
Por isso, como patrício Riograndense, antes de tudo Querido irmão, te saúdo Corcoveando de emoção, Pedaço do meu rincão Que estreito um abraço forte, Porque és também um suporte Da gaúcha tradição.