Inventário
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para as partilhas do nada que couber àqueles que dei vida em seio e ventre no sêmen feito flor numa mulher.
Há um Augusto dos Anjos na partilha - a seu modo de esquivo e solitário - e um anjo Augusto a me ensinar a lavra do texto cartorial deste inventário.
Uma frase lhes deixo em algum verso, um resto de canção ferida ao vento. Uma côdea de pão que matou fomes e os sóis do trigo que lhe há por dentro.
Uma caneca com águas de cacimba onde estrelas bailaram certa vez, ínfima fonte que parou no tempo quando a sede da vida se desfez.
Pela metade, um cálice de vinho na mesa onde sentamos e sentei. Parreirais ressecos de arroxeadas uvas nas terras de aridez que sementei. Um chapéu desabado, uma gravata, Uma camisa sem botões vos deixo é um brasão armorial que tem por armas um fio de barba que saquei do queixo.
Sapatos tortos de cansaço e ruas ao pé da cama, postos lado a lado - dois velhos barcos de arriadas velas - viajeiros de mim, desancorados.
Bolsos vazios do último casaco que me vestiu o emagrecido ser. Fantásticos surrões que hão de servir-vos para o que quis e que não pude ser.
O espelho que era os olhos de meus olhos, minha carne em luz e vidro refletida, moldura de meus íntimos retratos na cara sempre mais envelhecida.
E uma régua com traços de horizonte De azulecido além que a vista alcança, onde medi, centímetro a centímetro, meus legados de duras esperanças.
Uma caneta, um texto pelo meio E a clara folha onde ficou o verso, microcosmo de letras maltraçadas que medi em distâncias de universo.
A pasta preta onde juntei faturas dos trastes materiais que adquiri, roídos pela vida que encanece enquanto o tempo que comanda, ri.
Um riso amargo na fotografia em preto e branco - aquela das antigas. É que abaixo do riso que pisavam os ácidos espinhos das urtigas.
Um vaso roto num desvão de muro e no seu bojo a esfera de um cáctus, lanceando sombras com seus finos cravos cinzentos como o inverno e como os ratos.
De avós, pátino e pardo, um pergaminho, indecifrado mapa de tesouros, rota cavada à unha, sem que nunca as mãos das unhas lhe encontrassem o ouro.
E a pedra onde afiei pontas de lança, aços de adaga e cortes de navalha, e cicatrizes que me riscam a pele - pano da carne onde timbrei batalhas.
E uma casa vos deixo, de tijolos argamassados de vivência e dores, com fantasmas de mim morando nela, sonambulando pelos corredores.
E um sobrenome vos fica, se o quiserdes, para o rabisco das assinaturas: o traço que gastei vendendo ventos em contratos de amargas aventuras.
Castelos construídos, prata e ouros, sesmarias e bois que aqui não ponho. Não se mente no texto de uma herança riquezas ganhas pelas mãos do sonho.
E minha voz - num gravador de ecos - a dizer-vos num timbre doce e rouco que se é pouco o que vos deixo o pouco é muito, porque há tudo de mim neste tão pouco.
côdea= crosta, rosca
ressecos=ressecar= muito seco
Aridez=árido=Sem umidade; seco, estéril
armorial = Livro onde vêm registrados os brasões.
microcosmo = Mundo pequeno; miniatura do universo
encanece = Fazer-se branco (o cabelo, a barba); embranquecer
desvão = Recanto esconso; esconderijo
pátino = Camada esverdeada que se forma no cobre ou no bronze após longa exposição à umidade atmosférica