Alma em Verso
Poesia

A Minha Perna Direita

Ibani Jorge Bicca

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A minha perna direita que é parceira da canhota, assim enfiada na bota ninguém diz o que ela é. Bem ancorada no pé e aprumada no joelho, esta minha perna é o espelho do restante da carcaça. Pois onde esta perna passa, todo meu ser vai passando e atento vou registrando as glórias da minha raça.

Esta perna velha gaudéria, que hoje não anda, se arrasta, cumprindo a sina nefasta de sofrimento e de dor, foi um dia a fina flor entre as pernas deste pago, mas foi muito fumo e trago que a deixou esgualepada. Foi muito trago e tragueada que causou tamanho estrago.

Quem disse foi seu doutor, que o álcool e a nicotina entupiram as veias finas e as grossas se dilataram. Foi a um ponto que vazaram, pois estavam muito fracas, e o doutor passou-lhe a faca, tirando a veia estragada que não prestava pra nada. E a minha perna direita, nunca mais ela se ajeita, é pra sempre prejudicada.

A minha perna direita que é parceira da canhota, fica apertada na bota porque sempre está inchada. Às vezes fica inflamada, tem a cor escura e feia, e sempre usa uma meia pra fazer a compressão, evitando que a pressão faça aumentar o inchaço. E não importa o que eu faço, a perna é sempre um balão.

Quando esta perna era boa no tempo da juventude, eu fiz com ela o que pude e até o que não podia, pois sendo de infantaria, em corrida, marcha e manobra, eu tinha perna de sobra. Em desfiles e exercícios, não media sacrifícios pra fazer bem a missão, honrando o meu batalhão e cumprindo bem meu ofício.

Para andar atrás de china nas festas da pulperia, esta minha perna corria sem preguiça e com destreza. E por debaixo da mesa roçando em pele macia, a perna velha sabia o que era bom e bonito. Nunca fui de andar solito! E pra dançar num surungo, era que nem um matungo, quando a gente dá-lhe uns gritos!

A farda que a Pátria deu, eu trazia bem cuidada. Sempre limpa e engomada, eu a envergava garboso, no meu jeitão orgulhoso de militar federal. Mas a roupa corporal que o grandioso Criador, presenteou-me com amor, eu não tratei com cuidado. Com ela fui relaxado, tomando canha e pitando e ela foi se intoxicando, até ficar neste estado.

Meu peão e minha prenda, acompanhem meu pensamento: Se neste exato momento a minha perna está assim, o que espera por mim no restante da matéria? Será que doença séria, já não estarei sentindo? Porque estou sempre tossindo? Porque a falta de ar? E a dor que não quer passar, aqui no meio do peito? Será que ainda tem jeito? Será que posso escapar?

A cachaça não e remédio, nem cigarro, afirmação, pra os incautos sem ação, que não sabem o que fazer e procuram se esconder atrás de um copo de cachaça e um pouquito de fumaça, pensando que deste jeito, o que de errado tem feito, desapercebido passa!

Antes tarde do que nunca, nos diz o velho ditado. Meu vício já foi deixado. Graças a Deus consegui. Agora peço pra ti, que toma canha e que fuma, toma vergonha, te apruma, e vê se larga de mão pra que te conserve são! Porque a canha e o fumo, nos levam sempre no rumo da doença e do caixão!

Crédito da fonte: Poesias 2 Atenção: