Alma em Verso
Poesia

Historia de um pingo baio

Nabuco Portes

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Hoje eu me acordei pensando num Pingo Baio que eu tinha, não sei de que raça vinha, só sei me lembrar de quando montado nele viajando eu me achava um rei no trono. Muita vez peguei no sono, tragueado lá no bolicho, mas o Baio por capricho não se afastava do dono.

Doutra feita eu me lembro bem foi lá no rincão torcido fui durante um agrevido por um tal de Chico Vilém, a mando não sei de quem mui agressivo o rapaz, boleei a perna no mas e bufando o Diabo ai-veio mas o Baio entrou no meio expulsando o Satanás.

Depois daquela façanha emocionado eu dizia por Deus e a Virgem Maria nunca vi coisa tamanha quase que a sorte me estranha mas o Baio foi perito voltei pro rancho ao tranquito assubiando uma toada apeei na primeira aguada prá louvar São Benedito.

Nos anos que se seguiram o Baio foi meio tudo meu condutor e escudo o que falo muitos viram hoje todos se admiram quando esta história relato como é que um bicho-do-mato sem consciência, um ser omisso prestasse tanto serviço só tendo em troca algum trato ?

Depois da lide campeira aparte e tiro de laço para tirar o cansaço ia lidar na mangueira me serviu a vida inteira muito esperto, sempre manso ao fazer este balanço lembro do Baio a estampa velho sentauro do pampa que nunca teve descanso

Era o Baio do celim pro arado e prá carroça tudo o que um animal possa meu Pingo fazia sim era um orgulho pra mim ensilhá-lo com carinho fosse pra ir, ao moinho ou num rodeio de média nem carecia da rédia Ele sabia o caminho.

Meu Baio velho aragano faz bem recordar agora nem precisava de espora prá sair queimando pano lá na cancha do Ponciano a discussão era quente fez-se aposta derrepente o campeão era um tostado e o Baio ganhou folgado de corpo e meio na frente.

Carregou muita parteira levou criança prá escola, também desfilou pachola prá alguma China faceira foi também porta-bandeira na Semana Farroupilha a mais medonha tropilha repontei nele, montado sendo assim considerado patrimônio da família

Mas veio um tempo tirano para os campeiros do pago que até os pilas pro trago já me faltavam Paysano mas quem crê no soberano tem a fé por pára-raio vendi gaióta e balaio a barrosa e a mancinha porca de cria, galinha mas não vendi o Pingo Baio

Me fui cambeando de estância pois ví aí a saída campear a sorte perdida pro descuido ou arrogância olfateava na distância um novo ar de esperança Mulher e filhos na dança sem destino e sem dinheiro dentro de um velho cargueiro levava do Baio a mudança.

A vida foi-se ajeitando com muito esforço e de mão de changueiro ou de peão lidava de quando em quando alguém chegou avisando: Há nova encrenca na terra Homem e potro na enserra prá ser a dedo escolhido depois de velho e sofrido lá foi-se o Baio prá guerra.

Que momento doloroso pus-me a observá-lo a miude quis ir junto mas não pude por ordem dum tal Veloso o Baio estava nervoso por instinto pressentia que dessa feita ele ia prá não voltar com certeza enquanto a dor da tristeza pelo meu rosto descia.

Nunca mais ví meu cavalo nem outro igual encontrei o fim que teve não sei só o que me resta é lembrá-lo de certo habita algum valo onde o silêncio se expande clamarei por onde eu ande Baio velho do serviço teu último compromisso foi defender o Rio Grande.