Sinchaço
Brandia o vento no campo salmodiando um canto triste num preludio de saudade... A capa emaladita se acomodou na garupa de um lobuno venta larga; As quatro patas calçadas e a cola atada ao sabugo pra cruzar passos e sangas.
O chapeuzito zebruno que fora preto na essência, perdeu a cor com as chuvas e as soalheiras de março. No ombro um pala encarnado, o sovéu enrodilhado e o manguito pendurado com o fiel preso no braço.
Assim se saiu para o campo ainda com a manta do orvalho espreguiçada no pasto.
Já pressentindo a pegada, o lobuno venta larga vinha ladeando a picada pelos garfaços da espora. Talvez por isso essa hora seu Astor benzeu a face com o sinal da santa Cruz.
Quando chegaram na várzea o lobuno estaquiou as orelhas para aguçar o ouvido. Se ouviu de longe o mugido da mocha pampa extraviada que desgarrou-se da tropa direito a mata fechada.
Faz três dias que os cachorro andam no rastro da pampa que se apartou do rodeio.
Quase chegando no mato, cerrou na boca o palheiro que se quedava em braseiro coloreando uma tragada pensativo na empreitada do seu ofício campeiro.
Emparelhou na canhota encurtando a rédea chata, sentindo a boca do pingo que sujeitava no freio.
Viu a pampa num clarão e adentrou sem alarde pelas frestas da macega que dava na costa do mato.
Investiu contra a novilha pra que estourasse no limpo de uma resteva de trigo.
O bico da bota no estribo, foi desatando o sovéu chamando o pingo na espora. Os cachorro garronearam a pampa enfurecida que saiu limpa pra lida pra um embate campo a fora.
Semeou um tiro de corda laçando pelo gargalo aquela armada fachuda como se laça cavalo.
Deixou que a pampa se "fosse" espichando os "tento" forte na argola dá sobre-sincha.
Era um palanque o lobuno nos esteio das quatro patas, que no chão se enraizava tal um angico na terra.
Tava quase degolada, com um palmo de língua de fora teimando contra o sinchaço bem acoplado na corda.
Foi quando ouviu que do mato um berro de desespero e ganiços de cachorro ardia os olhos da pampa que mirava seu terneiro.
O mais duro dos sinchaços sentiu dentro do peito... A pampa mocha bravia buscara o mato fechado para parir sua cria.
Aquela rudeza vaqueana manoteou seu sentimento e a cena daquele momento encarcerava a agonia.
Largou as rédeas ligeiro para afrouxar o sovéu... ...a pampa entregue na forca levantou e se parou tonta cambaleando já sem força a meio passo do céu. Vendo de longe o terneiro, que do mato saiu berrando como chorasse clamando pedindo por compaixão.
Enxugou da face uma lágrima que brotou da própria alma... Apeou e largou a pampa que investia nos cachorro pra não pegar seu terneiro. Ralhou com os três ovelheiro ja recolhendo o sovéu...
Se enforquilhou no lobuno... ...voltou pensando na lida!
"Por nada o tempo é uma escola que nos ensina a cada instante... ...Se são os bichos ou a gente... ...a vida é vida pros dois... ... o respeito nasce pra todos... E o amor também se iguala quando falamos de filhos... ...para os homens e para os bois.