Décima para os Olhos da Alma
Se meus versos imperfeitos Se aperfeiçoarem nos netos Neste terrunho dialeto Carregarás o meu jeito... Aí sim, serás perfeito, Pois trarás na sua essência A xucra voz da querência Que canta um povo de glória Preservando sua história Nos pessuelos da consciência...
É muito mais que um dever Pois temos o compromisso, De não sermos submissos Aos delírios do poder... Pois cada qual é um ser Com perfeições e defeitos Mas nem por isso é direito Tacharmos o que é legado Nem que as marcas do passado Façam injustiça a seus feitos...
Qual aço que perde o fio De uma faca de valor Assim que vejo o amor Pelo que se construiu... Encanto que se esvaiu De algum quadro do passado Pelo tempo amarelado Foi nublando as retinas Pois as cores cristalinas Trazem seu brilho apagado...
E se as cores perdem luz Talvez pelo jeito franco Tudo fica preto e branco Nem mesmo o ouro reluz... No sentido que conduz Não conta se é fraco ou forte. Quando depende da sorte De nada vale destreza É um ciclo da natureza A travessia da morte...
Mas não me sinto atingido Por coisas vindas do ontem, Deixo que os ventos repontem Cada momento vivido Não sou daqueles fingidos Se me vejo sem saída Busco na fé a guarida Nas “percisão”de campeiro Pois nela habita um candeeiro “Alumbrando” a minha vida.
Feito a estiagem pra um rio Sem força pra correnteza Que não perde sua beleza Mesmo nas garras do estio Ou quando se achega o frio Nas sanguitas corredeiras As flores guapas costeiras Por terem raízes fundas Encontram terras fecundas Jardinando as barranqueiras.
Neste ciclo natural De renascer todo dia... Uns em forma de poesia Numa rima desigual, Outros, sobrenatural Renascem em forma de vento Trazendo seu sentimento Por isso que eu acredito Cada destino é escrito, Bem antes do nascimento.
Porém, nem tudo é eterno, Na verdade, quase nada... Somos pagina virada De uma folha de caderno... E mesmo quando no inverno O canto do rouxinol, Adoça a luz do arrebol Qual brasa que nos aquece Só quem persiste que merece Ter o seu lugar ao sol...
Buscando dentro de mim Meu verdadeiro caminho Decifrando o pergaminho Vasto de pasto e capim... Pois é do campo que vim E pro campo hei de voltar Meu doce e terno lugar Onde Gaúcho me fiz, Onde busco na raiz Largas asas pra voar
Brotei e cresci poesia No canto dos ancestrais, Com timbres de avós e pais Me fiz canto e melodia. No ritual de cada dia Arando e semeando a terra, Olfateando primaveras Pela magia do grão Pra semente virar pão Na mesa de quem espera...