Alma em Verso
Poesia

Cortejo de Luz

Henrique Fernandes

Publicado em

Fulgura a luz flamejante em oscilantes lampejos na vertical amarela sobre o altar do silêncio... Rosário de pensamentos que debulho num terço de tentos os mais vaqueanos sentimentos.

Á dias ando com a cisma que em meu rancho se arrincona alguma alma gaviona procurando parador. Tenho pra mim nesta ânsia, que talvez ande na estância seu Lautério, o carneador.

Quando guri já ouvia as historias de um preto véio, que morreu num matadouro quando a aspa de um touro furou o próprio sangrador... ...diz que morreu esvaído... E o touro, ao vê-lo agonizando, caiu de seco sangrando sem largar um só gemido.

Então ficou pela estância as histórias do Lautério... Negro veio macanudo que enterraram sem sepultura, com a xerenguita na cintura nos fundos do cemitério.

Foi campeiro o pobre negro... E dos bueno! Contam os antigos. ...filho da escrava Anastácia, com o Zóio tropeador. Aprendeu desde piazito a lidar com cordas e potros... -tinha o dom o desgraçado- Quando amuntava os baldoso campo a fora, sem costeio, podia deixar sólito, que ele voltava ao tranquito... Mansito pro cabresteio.

Pra uma taipa, tinha a perícia de assenta pedra por pedra, parelha... Numa tosa de martelo era maestro dos velos sem corta uma só ovelha.

E cresceu com tantos dotes. Destes que o campo semeia... E que só o tempo cultiva!

Num tiro de boleadoras Era um pealo certeiro... Abraçando os dianteiro como se bota maneia.

Tudo isso sem batistério! Era um mistério tanta pericia... Mas se viu do negro Lautério e até hoje se comenta.

Mas foi com a faca na mão que mostrou onde é doutor.

Com destreza e valentia não errava uma só sangria, sempre certeira no pulsador.

Quando deixou este mundo, não tardou virar estória... ...pois contam que ele dizia: - depois que’u desencarna volto pra paga os pecado que me atazana as memória.

Diz que viram o tal do negro afiando a xerenguita, rondando o matadouro... Outros, o viram carneando nos campo do seu Lobato, mas essa história é mal contada, pois é falta de pericia perfurar uma buchada, então foi registrado abigeato.

Talvez, na busca da calma onde também sou pagão... Senti na noite passada se achegar em minha morada alguém com uma faca na mão.

...ouvi de longe um “chairado” ante a figura de um negro que se apeava aplastado, implorando por um costado, refletindo paz e luz...

A mansuetude nos olhos espargindo condolência me deu a clarividência do peso leve da Cruz.

Não ficou preso ao pecado no jugo da sua sina... ...pois fora puro de alma na inocência que os mansos trazem preso nas retinas.

A busca da luz eterna transfigurava a saudade por reviver nas cantigas das longas rodas de mate.

Ilusões e pensamentos Que perenisam o espírito no clarão da transcendência... ...veio contar-me apenas que segue changueando a esmo com a chaira da providência.

-Não sou alma penada... Nem tão pouco ando vagando ao léu! O tino nunca perdi... Ando agora é changueando de obreiro, sendo o fiel guasqueiro dos trastes buenos de Deus.