A mão esquerda de Deus
Encarcerei a palavra Intimizando os lamentos Que em meu peito se acomodam. Busquei na face da Cruz - na mão esquerda de Deus – As razões deste silêncio Que me fazem olhar pra dentro E rever meu próprio “eu”.
Alo largo me vou, Recorrendo essas visões, De à cavalo num mutismo De segredos e solidão. Repovoando as taperas E aninhando recuerdos No bojo do coração.
É co’a guitarra nos braços Que falo mais que as palavras E dou voz a esta garganta Que se limita timbrada Nas maneias do seu som. É uma lamúria expressada Num ignoto dialeto De gestos e sensações.
Aprendi domar os potros Com uma paciência de pai, Que ensina a estrada pra um filho Pois recorreu os caminhos Ofertados pela vida e, Por saber das desditas, Conhece todos os trilhos.
Não leio os lábios dos outros, Pois aprendi com os bichos A ler os olhos da alma. Eles me contam segredos, Eles revelam mistério, Expressam suas inquietudes Com a pureza do olhar. Assim “as vez” me confundo Com rancores e maldades Que a raça humana em verdade Sabe bem como ocultar.
Por ter a língua travada E minha garganta algemada, Nunca pude largar um aboio Pro gado me acompanhar... ... eu tive que conquista-los Um a um acaricia-los Pra eles em mim confiar. Pasto novo, sal no coxo. Passar a mão em seus rostos, Com humildade e brandura, Pois minhas garras é a ternura E meu tento pra domar.
São os meus dedos que falam, São os meus olhos que rezam, É com a boca cerrada Que busco o Deus do silêncio Pra compreender minha ânsia. Não dou bola quando escuto, Nas rodas grandes do fogo: - alcance o mate de novo Pra o “mudinho da estancia”.
Enquanto escuto a peonada, Contando os causos da lida, Do dia que foi pegado Nas domas e marcação... Me paro mirando ao longe, Quietito imaginando, Como seria minha voz Sem ter que usar as mãos.
Não que eu queira ser cantor, Pois eu canto mesmo assim... Tenho cantado, e bastante... Também tenho recitado obras primas De um cenário que plasmo dentro de mim.
Eu não tenho essa vaidade De falar com a voz dos outros Me basta a compreensão Ao falar com coração A língua dos bois e dos potros.
Tenho tudo que preciso No silêncio do meu mundo. Tenho a voz das sangas rasas, Que no lajeado murmuram Sua sina de andejar... ... o sabiá laranjeira, Que imponente abre o peito Embuçalando a alvorada Pra o dia recomeçar. Tenho um grilo milongueiro, Com um ímpeto guitarreiro Que teima me amadrinhar. Então eu busco na mente Um poemita dos bueno Para adoçar o sereno Que benze meu silenciar.
Em mim não trago revoltas... Aceito a Cruz do silêncio... Assim não rogo blasfêmias Nem mesmo em pensamentos.
Sei que um dia minha voz Ecoará nestes fundos... Que a voz da minha guitarra Falará por mim e de tudo... De tudo que amo e penso, E que a prudência do silêncio Jamais me fez um ser mudo.
Na mão esquerda de Deus Estendo as minhas, cansadas... ... adornadas pelos calos Das brutas rédeas trançadas.
Na mão esquerda de Deus, Confesso em luz minhas penas... ... e resignado desfolho Trazendo a palavra nos olhos Com a alma doce e serena.
Na mão esquerda de Deus Me decifro silenciado... E é nestas mãos que insisto Pois foram as mãos de Cristo Que escreveram meu mandado. De nascer com a virtude Contemplada no silêncio...
(Silêncio...) ...o jugo que carrego como legado