Alma em Verso
Poesia

Uma volta

Gujo Teixeira

II Sinos do Verso GaúchoPublicado em

Encilho e aperto a cincha não muito, que a volta é curta... Meu baio sabe da lida mais da metade que sei foi no lombo desse pingo, que gaúcho me criei !

O coração num galope quase me sai pela boca recorre antes de mim a uma invernada distante sabe estender o olhar num atropelo de ida conhece pouco da lida, mas de mim sabe bastante...

Na porteira da Divisa, um campo bem lá do fundo que separa os nossos pagos com o outro resto do mundo a vista é de ver de longe, de apeiar e ver melhor. Ficar por tempos cuidando a imensidão estendida e poder pensar no que tem de bom pra nos dar a vida...

Ás vezes o pensamento vai mais longe do que pode volta no tempo e se perde em tanta coisa bonita carreiras, bailes de rancho, domingos de fim de mês quando estendia este baio na estrada de São Martin e me encontrava pra um mate, com a outra parte de mim...

Ás vezes o pensamento vai além do nosso tempo e projeta algum futuro, melhor ou talvez igual, um rancho de alma e morada, previsões de boas vindas: um sorriso, um mate novo, e o mesmo olhar da linda!

Ah ! Pensamento maleva, sem querer busca um sentido que talvez por esquecido tenha ficado na espera pra quando a alma da gente se perder, sem ter razão firmar bem a espora grande no macio do coração.

E como dói um pensamento desmedido...

Daí eu volto aos arreios e um pouco mais pro que vejo: campo, invernada povoada, coisas comuns por aqui... Numa canhada bem perto uma vaca pampa mocha reclama ao vento do sul por ter perdido o terneiro. Mas logo de entre as macegas um pampinha mascarado ainda meio aos tropeços responde por ser chamado.

Meu olhar se fixa no horizonte do poente... onde, a cavalhada por conta, se vai num galope de alvoroço são mais ou menos uns trinta, entre mansos e alguns potros disparando uns dos outros ou talvez do próprio vento.

Chegam perto num instante e ficam a olhar pra mim depois no mesmo galope, disparam sem rumo certo. Cena comum dos libertos que não conheceram freio e espalham o gado manso no “parador” do rodeio.

Meu baio segue ao largo cruzando o campo imenso e eu assovio com o vento uma milonga das minhas... cantando um verso que lembro com apenas “quatro linhas” mas que carrega a verdade de tudo o que sinto e penso...

...É coisa de encher os olhos e um gosto de querer bem sentir o vento no rosto e o gosto que a vida tem...

Dou de rédeas! Parece que até as casas, é um tanto de meia légua, as imagens que recorri cruzam como um raio quando por conta deixei do tranco do velho baio E a espora do pensamento, cutuca e me responde quando por ligeira se solta, mostrando que fui “mui” longe, pra quem ia só dar uma volta.