Lenda da Adaga
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Nasceste de um raio guacho na alquímia do espaço. O tento azul de teu aço veio da lonca do céu. És o bárbaro troféu de algum duende teatino que moldou teu corpo fino na forja dos elementos.
Quando transaram-se os tentos das braças grandes da hístória, como arremate de glória, com o Rio Grande na ilhapa, nessa gestação mais guapa que a América fecundou, foi teu aço que cortou, no parto meridional, o cordão umbilical do pago recém-nascido.
Tendo guinchos e tinidos como acalantos de guerra foste embalando esta terra no berço da formação. Na estranha premonição da cruz bastarda e do corte, foi que talhaste o recorte da própria história indecisa.
Oh, bárbara pitonisa da nossa gesta orelhana! Da algaravia pampeana foste a linguagem comum e a desquinar, um a um, os primitivos direitos foi que tramaste os preceitos de um nômade tribunal, até afirmar, afinal, jurisprudência bagual, definindo a ferro e bala nosso código penal.
Sangrando rumos e anseios na agitação das fronteiras, foste a rija feiticeira na nossa guasca etnia. Tua intrépida alquimia - mesclando origens, pendores, gerou centauros, condores, numa estirpe original. A simbiose radical, feita em teu crisol de bruxo, cristalizou o gaúcho como o guerreiro imortal.
E, por isso, adaga nua, quando prolongas meu braço, vejo espelhada em teu aço toda a gênese da raça... E a essa visão que passa repontando antigos feitos, me sinto um caudilho eleito na história viril da terra, pois ouço um clarim de guerra gritando Pátria em meu peito.