Guri Camponês
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Peço licença indiada, Vou contar a minha vida, Da minha querência querida Na campanha do Alegrete. Digo-lhes, fui até ginete, De matungo e de terneiro E por ser guri arteiro Levei muito do porrete.
Com oito anos de idade, Eu ia botar vaca, Atar sogueiro na estaca Pra recolher a cavalhada E sair de madrugada, Juntar os bois pro arado, Muitas vezes encarangado, Nos campos branco de geada.
Depois que unia os bois, Ia buscar o café E já não sentia os pés Da friagem que fazia. Daquela geada fria Que o sol ia derretendo E assim, eu fui crescendo Naquela lida bravia.
Lá na campanha é assim, A lida começa cedo, Mexendo com o bicharedo Trazendo as vacas pra mangueira, Misturadas com as tambeiras Que se vai amanunciando, De vereda se amansando Pra virar vaca leiteira.
Fui crescendo sem estudo, Sempre na lida pesada, Pé no chão, mão calejada, Da capina e do machado, Da foice e rabo de arado, De sol a sol trabalhava, Só no domingo folgava, Para brincar com meu gado.
Sempre morei na campanha, Fazendo cerca em banhado, Guri de garrão rachado Carreteiro e lenhador, Piá de estância e lavrador Obediente e bem criado. Quando levava um recado Sempre cumpria a rigor.
Aqui fecho a cancela Desta poesia sem luxo, Escrita por um gaúcho, Que mal aprendeu a ler. E muito pouco escrever, Apenas alguns bilhete, Pois sou cria do Alegrete Rincão que me viu nascer.