Alma em Verso
Poesia

gesta de um clarin

Guilherme Schultz Filho

Publicado em

Cemitério do Cordeiro, encostas do Camaquã. Ouvia-se de manhã o som de um clarim guerreiro.

Dizem que Antônio Ribeiro vinha ali ao clarear do dia, Em cívica romaria à sepultura de Bento.

E do glorioso instrumento de memoráveis campanhas tirava notas estranhas de estranhas sonoridades, acordando as soledades das quebradas ignotas...

Pelos campos, pelas grotas do rincão continentino, ia recompondo o hino de uma cruzada de glória, nas altas torres da História ao repicar como um sino!

A peonada nas estâncias, gaudérios e carreteiros. lavradores e tropeiros, escutavam nas distâncias as épicas ressonâncias do legendário Clarim que saudou Gomes Jardim na madrugada da Azenha!

E dos tapes, pela brenha da azulada serraria, o silêncio repetia nas alvoradas sem jaça a epopéia de uma raça escrita pelas coxilhas.

Recruzavam em tropilhas nas retinas veteranas as legendas espartanas dos guerrilheiros Farrapos, drapejar de rubros trapos das velhas cargas pampeanas! É Setembro. Primavera. Reverdecem as Campinas. Violinam as cavatinas das cigarras cantadeiras. Florescem as corticeiras ensagüentando banhados. E, nos brejos retovados pelas restingas escuras, estridulam saracuras num prenuncio de tormentas...

As corujas agourentas rouquejam sinistros pios. Roncam soturnos bugios na copa dos tarumãs. Nos ares cruzam tajãs e os lúgubres urutaus soluçam presságios maus nos ermos, nos socavões...

A noite emponcha os capões, os quero-queros alertas patrulham várzeas desertas, montam guarda nos rincões...

É Setembro. Primavera. É o tempo das marcações... Crepitam rubros fogões pelas alturas da Glória!

É a grande “yerra” da História rodeio de paladinos onde se marcam destinos com o ferro dos ideais e apartam-se os imortais para o Panteão do futuro!

Como espectros, no escuro, aproximam-se piquetes. sente-se o ruído dos fletes dos voluntários do brio que atravessaram o rio (bravos de Gomes Jardim!) desde a barra do Petin às escarpas de Belém. Vêm juntar-se também aos vanguardeiros de Onofre. É um povo que luta e sofre e sangra sem recompensa que vai lavrar a sentença de morte contra os tiranos! A tropeada dos dez anos começa neste momento.

E aquele acampamento nas culminâncias do cerro é o bimbalhar do cincerro dos livres chamando os bravos, que nunca foram escravos e escravos não hão de ser!

Pelearão até morrer (que essa é a menor das desgraças) deixando as rijas carcaças pelas planícies escampas, para que daquelas campas perdidas na imensidade o umbu da liberdade frondejasse pelos pampas!

Estâncias ficam desertas. ranchos viraram tapera. as lavouras em tigüera, cessou a lida nos rodeios.

Palpita em outros anseios o povo continentino que trançou com o destino na própria cancha da sorte um duelo de vida ou morte -desses que não têm arranjos!-

Descem da Aldeia dos Anjos, da Freguesia da Serra, grupos armados em guerra a incorporar-se na Glória.

E nesse pico da História, nesse cívico Himalaia já se encontram de atalaia rondando a tropa de um sonho os bravos de Santo Antônio, de Viamão, de Miraguaia!

São os filhos dos centauros que traçaram a fronteira e a comunhão brasileira presentearam este chão. Hoje de lança na mão indagam da prepotência se esta gloriosa querência é uma Província, ou senzala?

Trazem nas dobras do pala enfunado de minuanos um desafio aos tiranos que faz tremer o país!

Figuras brônzeas, viris, iluminam o cenário daquele augusto plenário da Assembléia Farroupilha reunida em plena coxilha na noite primaveril!

É a vanguarda do Brasil a velha raça idealista que voluntária se alista sem avaliar sacrifícios, para combater os vícios do centralismo unitário, sistema reacionário encarnado no Império.

É o peão de estância gaudério, são os índios perseguidos, são os negros oprimidos no tronco do cativeiro, enfim o Rio Grande inteiro que nasceu republicano que vai servir de vaqueano às Províncias co-irmãs!

Ressurgem nesses titãs os heróis inconfidentes. Frei Caneca, Tiradentes, Ratcliff e tantos mais que ensangüentam os anais da nossa emancipação!

A Grande Revolução da consciência americana galopa pela savana da gleba meridional e a falange imortal que escreveu Piratinim reencarna San Martin, Bolivar – Condor dos Andes- Artigas, todos os grandes libertadores da América! É a mesma façanha homérica que aqui se vai repetir, para assombro do porvir e espanto das gerações, que hão de ver nesses padrões os eternos vexilários dos anseios libertários da velha Província alçada, que nasceu emancipada sem conhecer donatário! Jamais o nosso Rio Grande foi menos regionalista. tem cunho universalista a luta que se promove. É a França de Oitenta e Nove, é a América do Norte a inspirar essa corte de heróis revolucionários!

Românticos carbonários discípulos de Mazzini, Zambecari, Castilini, Garibaldi, Luiz Rossetti...

Pelo Pampa se reflete a inquietude universal que persegue um ideal de justiça e liberdade de amor e fraternidade de progresso e humanismo que o Enciclopedismo sonhou para a humanidade...

“Nos ângulos do Continente por liberdade e valor o Pavilhão Tricolor se divisa sustentado”...

Velho lábaro sagrado da República andarilha que andejou serra e coxilha na vanguarda dos heróis! Colorido de arrebóis das manhãs continentinas, tens o verde das Campinas tens o ouro dos trigais e o rubro dos ideais da farrapa-montonera, velha e gloriosa bandeira, mortalha dos imortais! BENTO GONÇALVES DA SILVA austero, nobre e correto, ANTÔNIO DE SOUZA NETO -o campeador medieval- AFONSO CORTE REAL -o cavaleiro bizarro- DAVID MARTINS CANABARRO taciturno e silencioso, TEIXEIRA NUNES – garboso comandante dos Lanceiros, o primeiro entre os primeiros na missão mais arriscada- JOÃO ANTÔNIO – a honrada espada de peregrina conduta, disciplinado na luta misto de herói e de santo- ONOFRE PIRES DO CANTO -a bravura xucra e rude – JOÃO MANOEL – HONRA E VIRTUDE de nobre estirpe guerreira- MANOEL LUCAS DE OLIVEIRA, CRESCÊNCIO, GOMES PORTINHO, GUEDES DA LUZ, CARVALHINHO de façanhas imortais! os diversos AMARAIS -guerreiros e literatos- JOSÉ MARIANO DE MATOS, o velho GOMES JARDIM, o jovem tenente ALPOIM -o hábil conspirador- o temível FERRADOR -entre valentes, valente- o poeta ANTÔNIO VICENTE -o Virgilio dessa Eneida- DOMINGOS JOSÉ DE ALMEIDA, PORCIÚNCULA, os irmãos SOARES, são os heróis singulares da gesta aureolada em glória, estampas vivas da História num milagre de avatares!!!

E eles andarão pelas coxilhas repontando a tropilha de uma idéia. Os ecos do tropel dessa Epopéia ressoam pelos séculos em fora. Ainda se escuta a límpida clangora do clarim redivivo dos Farrapos e os feitos imortais daqueles guapos reverência a geração de agora.

Os fogões que acenderam pelo Pampa, no Litoral, na Serra, na Fronteira, ainda crepitam como a derradeira chama votiva de um clarão sem jaça. Quanto mais tempo sobre o tempo passa mais avulta dos bravos a memória, emponchados nas páginas da História amadrinhando os rumos de uma raça.